Pondera, Pandora, como se isto fosse um diário

Pondera, Pandora, como se trabalhasse para rever-se, inteira, neste diário

Um ou dois aforismos
Não sei explicar o motivo, mas sempre ouvi com um misto de curiosidade e desconfiança as pessoas que gostam de dar opinão introduzida mais ou menos assim: "como diz o poeta" ou "e como disse o outro". Apesar disso, coleciono alguns aforismos, cujos autores eu prefiro indicar a deixar no ar.

Teixeira de Pascoaes, por exemplo, tinha uns fantásticos: "Amar é dar à luz o amor, personagem transcendente"; "Só os olhos das árvores vêem a esperança que passa"; "Existir não é pensar; é ser lembrado"; "A indiferença que cerca o homem demonstra a sua qualidade de estrangeiro"; "Vivemos como num estado de transmigração para a nossa fotografia".

Ele viveu em Amarante! Pena que não se respire o mesmo ar nos dias de hoje...

O aforismo dele de que eu mais gosto, no entanto, entre os que saíram publicados pela Assírio & Alvim, traz o seguinte:

"A seara não pertence a quem a semeia, pertence ao bicho que a rouba e come".

Sendo homem da terra, do chão, dos cheiros da natureza, muito embora culto, eu só posso concordar. Para um espírito muito suave - a não ser quando sente-se desafiado -, esse tipo de sabedoria condensada é sem dúvida ensinamento.


quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Como não fiquei fã de uma jornalista e sua ideia de amor


"Sermões impossíveis
Fernanda Câncio JORNALISTA
Há uma frase que mais tarde ou mais cedo surge naquelas conversas de amigos sobre uma relação qualquer que ou deu para o torto ou nunca deu para mais nada: «Ela/Ele gosta de ti à sua maneira.» Claro que a forma mais saudável de encarar este tipo de asserção é descontá-la como consolo mais ou menos simpático: quem o usa fá-lo para certificar ao outro que afinal até é «gostado», só que não do modo como desejaria ou, as mais das vezes, como toda a gente com bom senso e sensibilidade acha que se gosta «a sério». Sucede que, além de não servir para nada - para que raio quer alguém magoado ouvir que quem o magoa o faz por (deve ser essa a ideia) ter um defeito de fabrico na área das emoções e afectos? - há neste dizer um lado desculpabilizador e até de subliminar o encorajamento da vitimização que é sumamente insuportável.
Ao pressupor que existem maneiras de gostar de alguém que permitem - é geralmente disso que se trata - a indiferença, a distância emocional a até os maus tratos, afectivos ou outros, está-se não só a colocar quem protagoniza essas acções (ou inacções) num papel de «coitado» que não sabe/não pode fazer melhor como a projectar em quem as sofre uma obrigação de «compreender» e talvez mesmo de «suportar» - de perseverar, portanto. Além disso, desloca-se o fulcro da relação da prática para a teoria: em vez de valorizar o que realmente importa, o bem-estar que se retira ou não dela, o esforço que cada uma das pessoas faz para fazer o outro feliz, a tónica passa a ser o que «se sente» - lá no fundo, no fundinho. Ora para alguém que é infeliz com outra pessoa não é nem deve jamais ser propriamente relevante que essa pessoa não consiga fazer melhor que aquilo e, quiçá, até se sinta mal com isso. O ponto é que ninguém deve permanecer ou investir em relações com essas características, e é isso que os nossos amigos nos devem dizer. E se não conseguem fazê-lo, ao menos que se abstenham de repetir «mas ele/ela gosta de ti», como se isso lograsse algum milagre bíblico, do género de transformar pedras em pão.
As pessoas ficam juntas, ou seja, mantém aquilo que passa por ser «uma relação» por inúmeros motivos. Partir do princípio de que se alguém permanece com outra pessoa é porque gosta dela - «por que outro motivo seria?», pergunta-se muitas vezes - é uma tontice. Há relações que mais não são do que formas perversas de dominação e tortura (veja-se as que são conformadas pela descrição de «violência doméstica»), necessidade de uma aparência de «normalidade» ou, o que é mais comum talvez, hábito, conforto, reforço narcísico - o ter alguém, ali, à mão, que gosta de nós e nos trata bem, alguém que por isso mesmo se pode tratar mal. A medida do sentido de uma relação nunca deve ser, pois, o facto de existir (pelo menos como algo que está), sobretudo se só existe à custa do investimento emocional de uma das partes.~
A ver se a malta se entende: não é preciso tirar um curso, decorar aquelas frases feitas sobre as relações ou uma canção pop alusiva ao tema para se saber que se no encontro entre duas pessoas uma delas está em situação de ouvir que a outra «gosta dela à sua maneira», a relação está boa para deitar fora, e quanto mais depressa melhor. Ficar porque já se investiu/sofreu muito ou porque «se gosta» (geralmente as duas coisas misturadas e na verdade a querer dizer o mesmo, já que só se investe e sofre porque se gosta) significa apenas que se vai sofrer mais. E se na escola não se pode ensinar como fazer os outros felizes, se o exemplo dos pais nem sempre abona, ao menos cada um de nós, nas nossas relações com os outros, saiba fazer pedagogia do afecto como algo que se sente e se faz sentir, não como um valor que se amealha numa qualquer conta enquanto se vive a pão e água. Não há austeridade no amor. Ou há amor ou não há, e o amor dá-se, prodigaliza-se, não se guarda. Tudo o que for menos do que isso não presta. Xô."

Vou procurar seguir a mesma ordem que a jornalista da revista Notícias Magazine utilizou para o texto deste último final de semana, porque na minha cabeça o assunto de que ela trata é manhoso, no sentido português da palavra, isto é, é um assunto ardiloso. Relações amorosas são um rio ora cheio ora quase vazio, com mais peixes numa época do que em outra, com ou sem vegetação - exuberante vegetação ou relva rala -, protegido da poluição ou tomado por ela. Com duas margens e até com uma terceira.

Para começar, preciso dizer que não me sinto confortável ao ler uma frase do tipo "como toda a gente com bom senso e sensibilidade acha que se gosta 'a sério'". Posso refutá-la de várias maneiras: toda a gente com bom senso e sensibilidade acha igual? Gostar 'a sério' é, afinal, uma coisa apenas? Gostar a sério nos impede de viver outras formas de gostar? Quem conversa conosco acerca desses assuntos tem a coragem de nos encarar e perguntar se nós próprios sabemos o que é gostar 'a sério'? E nós, sabemos ou queremos saber, realmente, em todas as alturas da nossa vida, o que é gostar 'a sério'? Temos a obrigação de saber? Não há escalada nesses nossos processos internos? Não há escalada nos processos de escuta e de narração, quando estamos a partilhar com os amigos? Enfim, argumentos vão aparecendo, contra uma afirmação frágil.

Penso que a jornalista partiu de uma pressuposição perigosa. Porque se alguém julga que sabe definitivamente o que é gostar a sério, deixa simplesmente de ter motivos para estar em contacto com os diferentes, querendo receber mais do que dar. Em outras palavras, quero reforçar que, caso eu saiba melhor do que os meus amigos o que é gostar, deixo de me preocupar em excesso com o quanto ofereço comparado ao quanto ganho, e passo a oferecer sem medir com uma régua. Não conheço muita gente que aja assim, nem muita gente que entre numa conversa a dizer que sabe o que é gostar e que não se importa de dar, nem muita gente que na concretude da convivência faça por ser assim, sábia e praticante. É mais comum dizer e não fazer, não ter força e paciência pra fazer, julgar que faz como ninguém!

Entro, então, num outro ponto levantado pela jornalista Fernanda Câncio. A história do consolo e da vitimização em que ela vai com tudo.

Nas vezes em que um amigo fala, que eco a conversa gera? No momento em que eu, como interlocutora, me imagino a ouvir uma segunda voz que aponta para o puro consolo, não estou a ouvir bem, não estou a ouvir a voz do outro (mas ouço, sim, a minha voz rigorosa e provocadora), não estou com um amigo que me ouviu bem. Uma das hipóteses é válida. Quem é que afirma, sem titubear, que nunca ouviu sair de dentro da sua armadura uma voz que instiga a brigar e a projetar no outro o nosso algoz? Acontece nas melhores famílias. Nosso diálogo interno às vezes maça, às vezes vai além, desespera. A batalha, por isso, é contra agirmos motivadas por essa voz, que é nossa. E se encaramos o desafio de não tirarmos de cena o nosso lado adulto, o lado que nos pode ajudar a pôr de parte essa nossa voz, o que nos resta da personagem a que se pode chamar vítima? Quem dá luta não é vítima! Portanto, a longa lista que vai desde estar numa relação, partilhar com quem tem envergadura moral o nosso crescimento cotidiano como membro de um casal, ouvir o feedback e seguir em frente para crescer mais, evitando a armadilha das nossas ideias preconcebidas sobre o amor, vociferadas dentro de nós e entendidas como fala alheia, não é lista de uma vítima. Uma vítima tem um discurso viciado, previsível, choroso, que exclui suas próprias participações e aponta sempre para as maldades praticadas pelo outro, seja ele o(a) parceiro(a) ou o(a) amigo(a).

Fiz-me entender?

Com toda a sinceridade, não me lembro de ter ouvido uma pessoa do meu círculo a deixar nas entrelinhas a ideia de que está tudo bem quando falta amor, quando falta carinho, quando sobram antipatias, grosserias, boicotes, sabotagens. E há explicação simples para essa ausência nas minhas memórias: o que as pessoas querem é acolhimento, às vezes até o que dura pouco. Não resisto e, nessa vaga boa, trago um verso curto da canção deliciosa do Gonzaguinha, artista já falecido: "Tudo, amiga, é apenas carinho e atenção". É isso. Cabe no verso de uma canção. Estava no olhar do compositor, profundo para quem o quer assim. Muito curiosa eu ouvi, faz uns meses, o depoimento de uma atriz portuguesa que eu tomava por superficial. Alexandra Lencastre, uma mulher bonita e presente nas revistas de fofoca, comparou as paixões a um capricho, mais ou menos nos seguintes termos: o que diferencia um capricho de uma paixão? O capricho dura mais tempo. Voltando ao compositor, que mora na minha cabeça musical, há sentimentos sólidos como o tronco de uma árvore que vão definhando por causa da falta de carinho e só ele, sem a solidez que não se explica, resulta mas pode não vingar. Carinhos trocados, ternura,  tesão serão medida para o gostar 'a sério'? Eu não sei o que é gostar 'a sério', mas valorizo a dúvida, não aceito que digam por mim se está bem para a humanidade ou se é humilhante. Minha voz já atrapalha o suficiente.

Retomando sem recorrer aos artistas, lembro aqui que existem pessoas que, por não se quererem vitimizar, assumem aquilo que vivem numa relação como fruto do que constróem no dia a dia e, assim sendo, refletem, procuram estratégias ou permitem ao tempo que opere as suas mudanças. Umas derivam, erram, tropeçam, porque querem à força o que não lhes é dado, como se o outro tivesse a obrigação de fazer feliz quem está com ele. Discordo. Ninguém tem esse peso, pois o importante é compartilhar, aprender, para si e por si, para os outros e com os outros. Fazer feliz? As fadas fazem, na literatura... Ou faço eu, a mim e à família, a mim e aos vizinhos, a mim e aos desconhecidos. Nem ao cinema eu vou para que me façam feliz. E olha que sou eu a pagar o bilhete. Vou para rir um pouco ou para pensar ou para estar no escurinho com trilha sonora, sei lá. Fazer feliz é mais subjetivo. A minha antena capta felicidade e retransmite numa lógica que escapa até a mim.

Conheço uma senhora doce, alegre, cujo marido tentava muitas formas de humilhação dentro de casa. Ela chegava ao local de trabalho pesarosa, mas não se apoiava em lamentações. Buscava em outras fontes o que lhe serviria de bálsamo. Curava-se, voltava para casa refeita tanto quanto possível, com condições de nutrir a relação, lentamente, de uma qualidade que ao marido acabou por fazer a diferença. Ele compreendeu que era menos companheiro do que podia ser; um dia, deu uma resposta boa à resistência dela. Eu não a chamo vítima. Porque ela não se fez vítima nem aos meus olhos nem para ela mesma. Pode ser que dentro da cabeça dela também ecoasse aquela voz insistente, mas parece que ela driblava essa voz por ser carinhosa. Isso vale mais do que usar uma relação, boa ou má, para eximir-se da tarefa de viver a vida como ela se apresenta.

O que poderia ser diferente do que a jornalista apregoa?

Imagino que tenho mais um ano letivo com uma turma de 50 alunos, como costumava ser. Não sendo muito vulgares as turmas homogêneas, eu estava em pé diante de 50 pessoas de naturezas distintas. Umas mais aplicadas nos estudos, outras mais desatentas. Umas mais confortáveis nas cadeiras, outras mais irriquietas. Umas mais caladas, outras mais questionadoras. Umas mais atrasadas quanto aos deveres marcados, outras mais disciplinadas nas entregas dos mesmos deveres. Umas cujas famílias eu já tinha conhecido em outros anos, outras novas, incógnitas. Que fazer? Exigir rigorosamente o mesmo de cada um? Nunca mudar as palavras do meu discurso, para me fazer clara para uns e outros? Aceitar ou não sugestões? Mostrar ou não como eu quero que sejam as rotinas? O que eu defendo: a única coisa que contaria, nesse caso, é dar aulas, encarando o que viesse pela frente. Chegaria o momento de discutir o que estávamos fazendo na escola, o momento de marcar exames, de devolvê-los corrigidos, de justificá-los, de combinar passeios, de propor leituras, de voltar a falar das nossas responsabilidades, de chamar os pais, de rir, de querer fugir etc. Viver é isso. Vive-se em casa, ao lado do companheiro, vive-se na escola, vive-se no trabalho, vive-se dentro do carro, no trânsito, vive-se nas discotecas, nos cafés e padarias...

Na minha opinião, há respostas para quem as procura. Há momentos para procurá-las. E não há lição em que professor e aluno não aprendam um com o outro. Vive um amor quem acha que ama mais, vive quem acha que á amado demais. Só não há vida com amor para quem se retira, para quem acha que ouvir a respiração do outro e o que ela tem a dizer é mais relevante do que respirar e, então, descobrir-se no amor.

Ficar ofendida porque um amigo aconselhou mais aceitação da minha parte? Ficar com a sensação de que esse amigo me vê como vítima? Ficar com a pulga atrás da orelha porque não gostam de mim 'a sério'? Se eu só me perspectivo desse modo, eu me vejo muito mal! Isso sim é vitimização, embrulhada num papel mais bonitinho.

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