Pondera, Pandora, como se isto fosse um diário

Pondera, Pandora, como se trabalhasse para rever-se, inteira, neste diário

Um ou dois aforismos
Não sei explicar o motivo, mas sempre ouvi com um misto de curiosidade e desconfiança as pessoas que gostam de dar opinão introduzida mais ou menos assim: "como diz o poeta" ou "e como disse o outro". Apesar disso, coleciono alguns aforismos, cujos autores eu prefiro indicar a deixar no ar.

Teixeira de Pascoaes, por exemplo, tinha uns fantásticos: "Amar é dar à luz o amor, personagem transcendente"; "Só os olhos das árvores vêem a esperança que passa"; "Existir não é pensar; é ser lembrado"; "A indiferença que cerca o homem demonstra a sua qualidade de estrangeiro"; "Vivemos como num estado de transmigração para a nossa fotografia".

Ele viveu em Amarante! Pena que não se respire o mesmo ar nos dias de hoje...

O aforismo dele de que eu mais gosto, no entanto, entre os que saíram publicados pela Assírio & Alvim, traz o seguinte:

"A seara não pertence a quem a semeia, pertence ao bicho que a rouba e come".

Sendo homem da terra, do chão, dos cheiros da natureza, muito embora culto, eu só posso concordar. Para um espírito muito suave - a não ser quando sente-se desafiado -, esse tipo de sabedoria condensada é sem dúvida ensinamento.


sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Esses ex-alunos da Fundação me matam!

Conversando com um ex-aluno alegre e ativo, coisa de minutos atrás mesmo, senti uma fagulha:
- Ah, vou nessa! Vou mostrar no blog textos diferentes na origem... feitos por causa do estado de graça da melhor noite da minha vida.

Paulo Leminski dizia que para um poema são precisos anos de vida! As imagens que ele foi buscar são todas muito palpáveis. Querem ver?

um bom poema leva anos
   cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
   seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
   sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
   três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
   uma eternidade, eu e você,
caminhando junto


Pra mim fica mais claro, depois dessa sugestão do poeta, que os meus pequenos poemas de comoção pelo nascimento do meu filho já aprendiam a andar antes de o Átila chegar a esse mundo.

Sendo muito franca, sou adepta dessa concepção de evolução. Eu própria tinha um sonho com o meu filho, desde a minha adolescência. No sonho ele era o Átila (o rei huno, não, mas o meeeeu Átila), embora o sobrenome/apelido fosse outro - que não é o meu nem o do pai dele.
Estávamos a brincar num parque de diversões dentro de uma praça circular, grande.
Eu já era uma mulher tensa (não!) e ele tanto me compreendia, que fazia as vezes de amigo, desde pequeno; dizia para eu me acalmar, porque ele gostava de todas as pessoas da família, inclusive daquelas de quem eu, como mãe perturbada, sentia ciúmes...

Fujo de comentar mais o sonho recorrente, porque já calhou a mim, mais de uma vez, essa onda de pensar que antevejo e vislumbro! Não refuto a mão que ele estendia para mim em sonho, claro que não, mas fazer figura de má diante dele, num futuro próximo, é pior do que pesadelo, seria realidade a mais para mim.
Eu sonhava com meu filho, entenda-se isso como for possível.

E na sequência do nascimento dele numa maternidade pública da cidade do Porto, cheguei a casa em Amarante e fiz uns poemas. Estava profundamente agradecida por ter estado com outra mãe, num quarto de hospital simples, sem a barreira de uma sala só para bebês. Em Portugal, filhos ficam ao lado da cama das mães, num bercinho em acrílico. O meu, como o de muitas outras, presumo eu, passou toda a noite deitado em cima de mim, barriga contra barriga. Foi assim que eu vi as horas caminharem.

É de um fruto dessas horas - e otras cositas más - que este post trata.

Já uma vez publiquei poemas numa revista chamada Crioula; depois mandei mais uns para o blog de uns amigos, o Jean Narciso Bispo Moura e o Luciano Melo. Lanço aqui e agora as aspirações a hai-kai que mais me tocam, nessa aventura de ser mãe:






Atravessamos a noite
pela janela.
Quarto de hospital.

 
Mãe e filho numa maratona:
reta final do milagre
de (re)nascer.

 
Naquele que foi nosso ninho,
só uma moldura continha um vidro.
A ternura transbordava.

Projeção do instinto maternal,
pele com pele,
placidez.

Projeto-resposta
à pergunta-essência:
“Estás em mim?”.
 
 

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

- Clarice!

"Francisco Quinteiro Pires

Literatura

09.11.2011 12:21

Para inglês entender

Edições de A Hora da Estrela, vertida por Moser para a New Directions, buscam recuperar o tom literário da escritora, perdido em traduções anteriores. 




Foto: Luiz Maximiano

A escritora Clarice Lispector (1920-1977) ganhou uma segunda chance no mundo que fala inglês. Cinco dos seus livros, Perto do Coração Selvagem, A Paixão Segundo G.H., Água Viva, A Hora da Estrela e Um Sopro de Vida, vão receber novas traduções. Coordenador do projeto, Benjamin Moser vê na empreitada a oportunidade de Clarice ser mais conhecida nos Estados Unidos e no Reino Unido. Segundo Moser, dada a má qualidade das versões em inglês, quem lê a autora brasileira corre o risco de não entendê-la. “O erro das antigas traduções foi querer tornar o seu estilo mais legível”, diz.
Autor de Clarice, uma Biografia (Cosac Naify), Moser considera praticamente impossível traduzir os livros da ficcionista. “O dela não é um português normal, ele é agressivamente estranho.” Moser assina a nova tradução de A Hora da Estrela (1977), a ser publicada em novembro pela New Directions (EUA) e pela Penguin Classics (Reino Unido). Alison Entrekin vai traduzir Perto do Coração Selvagem (1944); Idra Novey, A Paixão Segundo G.H. (1964); Stefan Tobler, Água Viva (1973); e -Johnny -Lorenz, Um Sopro de Vida (1978)."

Tudo o que você acabou de ler, e que está entre aspas, eu li na tela/ecrã do meu computador há minutos, acessando o site da revista Carta Capital.

E li com ressalvas.

Conheço bem os contos de Clarice Lispector. As histórias infantis, idem. Os romances, ia conhecendo conforme era preciso tratar deles com meus antigos alunos. Não os estudei à exaustão, confesso.

Estudo desde aproximadamente ano e meio, novamente, Clarice Lispector, inclusive o lado missivista de Clarice. Ela é autora de cartas muito afáveis, dirigidas às irmãs e aos amigos, por exemplo.

Em minha pesquisa, tento dar uma forma a esse cruzamento entre ficção e não-ficção, considerando todas as implicações que o gênero carta tem. Sem falar no fato de ela ter produzido boa parte do que eu estudo enquanto vivia no exterior a experiência de ser estrangeira - até para ela própria, em certa medida.

Para isso conto com uma fortuna crítica que já tem seu peso. Ressalto que existem no mercado livros excelentes de pesquisadores brasileiros, livros da Universidade de São Paulo, livros oriundos de anos de pesquisa em outras instituições do Brasil.

Há dois anos estive na Casa de Cultura Japonesa da USP, para acompanhar um lançamento importante.
Era Nádia Battella Gotlib a dar a conhecer uma nova edição da fotobiografia de Clarice Lispector.

Comprei, li, emprestei, recebi de volta e tornei a folhear.

E, já aqui em Portugal, dei-me conta do rebuliço em torno do lançamento da biografia escrita pelo pesquisador inglês referido no texto da Carta Capital. A coisa soou meio esquisita para mim.

Jogaram confete a mais, a meu ver...

Cheguei a escrever para uma revista portuguesa que divulgou o lançamento, questionando a ênfase com que apresentavam ao público o trabalho dele, num período tão próximo do relançamento da fotobiografia anterior. Eu, pelo menos, não havia notado semelhante alarido por causa do trabalho feito pela antiga professora da USP, Nádia Battella Gotlib.

Não li resposta da revista para o meu argumento.

E agora, numa revista brasileira, mais confete.

Que acham do texto? Que pensam do tom usado?

Vou investigar: Clarice ganha uma 2ª chance perante o público que lê em língua inglesa? Bom, prefiro saber quem traduzia a obra dela até então!

Isso de condenar traduções é delicado. Quem quer criticar tem que saber ao pormenor o texto original, depois tem que saber apontar os problemas pontuais da tradução, e tem que explicar o que louva numa tradução nova. Nessa seara não basta vir com uma noção vaga, uma impressão ou coisa que o valha.

Clarice Lispector já é, de algum modo, conhecida nos Estados Unidos... Tem críticos nesse país. É estudada nesse país. Moser desejará, portanto, que ela seja lida pelo grande público? Será? Só isto rendia uma reportagem inteira da Carta Capital. Assim traçavam para os brasileiros, para os lusófonos, para os amantes de literatura, para os conhecedores de Clarice (e muitos jovens no Brasil o são, por causa do Ensino Médio), enfim, um panorama de leitura de autores lusófonos nos Estados Unidos. E muitas questões adjacentes vinham em seguida. E o hábito de criticar tradutores - os brasileiros são mencionados sem o menor cuidado, em Portugal - era passado em revista. E tal e tal e tal.

Se o próprio Moser vai traduzir, começa a cheirar a reserva de mercado no âmbito das Letras... Achei que apenas os professores universitários mais acostumados faziam dessas!

Por fim, o que depreender daqui: "Moser considera praticamente impossível traduzir os livros da ficcionista. 'O dela não é um português normal, ele é agressivamente estranho.'"?

Clarice pode ser agressiva, estou com um conto em mãos particularmente engraçado nesse sentido. E olha que eu estive às voltas, na minha cabeça, com aquela ideia de ser tosca. A protagonista do conto se refugia um pouco nessa condição, quando o mundo exterior a sufoca de monotonia. Mas o português de Clarice será agressivo? O que isso quer dizer? Traduza, por favor, em termos de verbos, de substantivos, de adjetivos, de montagem do discurso direto, de metáforas, de pontuação, de silenciosas omissões de palavras, de idioleto...

Terminar um texto informativo com esses rasgos de mistério não me seduz, nem como leitora nem como pesquisadora. Aliás, nem o lugar comum ligeiramente alterado, do título "Para inglês entender", tem a minha simpatia. Sugere um questionamento que o texto frustra. Ajoelhou, tem que rezar, senhor jornalista!

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Não é incoerência, é só uma ideia

Houve um post que terminei com a ideia de que, às mulheres, fica bem serem toscas. Acrescento que fica bem às mulheres serem toscas, charmosas, prendadas, depende do contexto.
Trato já de me defender, porque hoje a palavra "tosco" anda em muitas bocas. Recorro ao Caldas Aulete, na versão disponível no UOL:

(tos.co) [ô]

1. Que não é lapidado, polido, nem lavrado; tal como a natureza o produziu; BRUTO: "Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, dura, tosca, bruta, informe." (Padre António Vieira)  
2. Feito sem capricho (móveis toscos); MAL-ACABADO
3. Que revela falta de instrução, de cultura: "Ele teria tido certas dúvidas de se abrir com um homem tão tosco..." (Antônio Callado, Bar Don Juan))
4. Feito sem esmero; GROSSEIRO; MALFEITO: escada cavada em toscos degraus.
5. Rude, rústico, grosseiro (linguajar tosco): "Uma tumba negra jazia ao lado e uma cruz tosca no chão cravada" (Almeida Garrett)
[F.: Do lat. vulg. tuscus, 'dissoluto'.]

A minha aspiração é qualquer coisa como dispor mais vezes da liberdade de não caprichar, de dar menos polimento às falas e aos gestos, para economizar energia.
Ou, por outro ângulo, quero dizer que a mim ficava bem dar menos polimento, para esperar menos dos outros também. Estarei “a perder qualidades”, como dizem os portugueses?
Não sou irrepreensível, longe disso, e ninguém o é, então por qual motivo insistir na amabilidade a todo custo, a toda hora? Se calhar, esse excesso abre caminho para pessoas que não pediram para entrar… E com certeza obriga a um gasto de energia.
E certas horas eu quero desligar o botão, para poupar energia.
Parece que pouca polidez, isto é, pouca atenção aos modos, à comunicação, ao bom senso, reina e não se trata de agir com maldade! Deve ser falta de treino da maioria das pessoas. Pode ser economia de energia.
Recentrando a questão, quem dera eu fosse mais tosca, porque ser amável e despojada ao mesmo tempo ainda está acima das minhas possibilidades. É uma das minhas aspirações, mas por ora eu não alcanço!
Fosse eu mais tosca, no sentido de mais relaxada, e estavam postos de parte muitos mal entendidos… como igualmente estavam garantidas algumas cenas divertidas.
Nosso lado impuro, mal acabado, tem sua graça natural! É tal e qual a risada que a leitura da primeira estrofe desse poema do Leminski provoca:

“Conheço esta cidade
como a palma da minha pica.
Sei onde o palácio
sei onde a fonte fica,

Só não sei da saudade
a fina flor que fabrica.
Ser, eu sei. Quem sabe,
esta cidade me significa.”

Se eu fosse aqui e ali mais tosca, eu ria mais, os outros riam mais. Éramos nós mesmos, de cabeça e coração livres para darmos a faceta bem-educada quando estivéssemos em curva ascendente. Vindo a descendente, mudávamos o registro para o modo tosco, sem culpas…

Não faz muitos anos aprendi algo semelhante a essa ideia que eu encontrei em Leminski, que eu referi no outro post por causa de Adélia Prado e que eu mesma sinto, quando a minha insistência em dizer “obrigada”, “por favor” e afins soa como um exagero meu, já assumido neste texto. Uma velha amiga, psicóloga de profissão, me dizia que nem sempre vale a pena ser "boa moça". Dar constantes sinais de boa educação, cuidar que nos tomem invariavelmente por calmas, doces e flexíveis não nos torna mais respeitadas. Podiam me chamar “fresca”, como se diz em São Paulo, eu aceitava; eu aceito, desde há algum tempo, que me chamem “tosca”.

Faz alguns dias estive na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. O anfiteatro nobre estava cheio, cadeiras ocupadas por uma plateia disposta a ouvir e ver mulheres inteligentes e divertidas. Não fazíamos a menor ideia acerca das habilidades delas para os afazeres domésticos, não tínhamos conhecimento da disponibilidade para agirem como boas moças, educadas e passivas.
Estava prevista a presença de Maria Teresa Horta, autora do livro em lançamento; de Ana Luísa Amaral, uma das professoras encarregadas de comentar o livro; de Maria Luísa Malato, a outra professora encarregada de apresentar o livro à plateia.  
Maria Teresa Horta, a autora, é fantástica.
Não vou desviar dos adjetivos, neste caso. Nem sei se os evito normalmente. Hoje sem dúvida não quero evitar.
Ela se empolga ao falar de mulheres cuja biografia estudou anos a fio; empolga-se ao falar das amigas, uma delas presente, a sua editora na Dom Quixote; empolga-se ao falar de livros; empolga-se se alguém assinala a importância que ela tem na assunção da sexualidade das mulheres mais velhas; empolga-se quando a plateia ri e acompanha o raciocínio delas. Empolga-se. E recomenda que outras mulheres excedam, ousem abrir os olhos para o que pode ser a intimidade de uma mulher, leiam e façam-se perguntas sobre o que mulheres de outras épocas viveram.
Li Novas cartas portuguesas, livro cuja autoria ela divide com mais duas mulheres (Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno), várias vezes desde o meu 1º ano de faculdade.  
Vou ler As luzes de Leonor, sobre Leonor de Almeida, a Marquesa de Alorna, para saborear a vida de mulheres que até em praça pública estiveram, à espera da condenação. Segundo Maria Teresa Horta, no momento crucial da execução, a avó de Leonor, a Marquesa de Távora, não agiu como quem faz concessões, não deu aos outros o gosto de vê-la, perturbada e temerosa, a consentir sem mais; respondeu ao carrasco com firmeza e precisão. Para dispor da nossa energia é necessária por vezes uma dose de manipulação.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O pouco que deduzi sobre estar em família, por ter ido à praia neste último verão

Sei mais do que sabia durante a minha infância, ponto nº 1!

Minhas idas à praia antes dos 10 eram plenas, mas nunca tinham feito com que eu me visse responsável, só me fizeram associar mar a risco e a força, sob a proteção paterna.

É que quando se tem filhos e vontade de pensar na construção de uma família, muita coisa etérea ganha consistência e é posta à prova. E este foi o meu primeiro verão acompanhada do meu filho único.

Logo à saída de casa, a arrumação do carro, que merece um pequeno parêntesis: sem experiência de ter ido à praia de transporte público uma vez sequer, fico sem saber um minúsculo traço que seja das famílias que não têm carro… É pena. Vêm à cabeça recortes meio confusos de programas humorísticos da televisão, no estilo A grande família, da Globo, mas sei lá eu se eles são ou não são paródias da realidade...
Enfim, o que se pode levar no carro? Dá para explorar umas tantas questões corriqueiras se respondermos a essa pergunta:
Alguém interfere no volume de bagagem de cada membro da família?
Quem organiza a bagagem no porta-malas? Há sempre um com mais jeito. Ou com mais calma.
Será o de mais autoridade o que acomoda os pertences?
Aliás, comida, roupa e objetos úteis e menos úteis vão soltos, vão ao colo, vão misturados?
Quem senta aonde, excluídas aquelas condições que dispensam comentário (bebês, nas cadeirinhas apropriadas; pessoas de idade, no banco da frente, para entrarem e saírem do carro com mais comodidade)?
Quem abre o vidro e quem pede que o aparelho de ar condicionado seja ligado?
Quem reclama mais vezes do trajeto e da entonação das conversas?

Já na areia, é preciso pôr o guarda-sol em posição, estender toalhas, proteger a bolsa da comida e, então, proteger-se do sol. Nisto tudo, são solidárias as pessoas que saem juntas a passear no verão? Falam, por exemplo, num tom amigável para dividir tarefas que interessam a todos ou apenas para tagarelar? Sabem ver-se em traje de banho sem rir ou sem dar de ombros para as inseguranças alheias? Corpo é sempre corpo e viver em época da mais indisfarçada pressão mediática para ter o corpo perfeito não é brincadeira!

O principal, pelo menos na minha modesta opinião, no meio de tanta manobra familiar para aproveitar o dia – e a companhia: como é que se vai à água? Ou, se o gosto for outro, quem caminha ao lado de quem na areia fofa da praia?

Para manter a coerência relativamente aos outros textos que tenho postado, fica a partir daqui um esboço de reflexão, uma miniatura. Em que não está incluída a minha participação verdadeira, o meu depoimento, por assim dizer, mas só os meus cálculos mentais, que podem estar cheios de pressuposições.

Lembro-me agora de apontar que é engraçado, quando moramos fora do nosso lugar de origem, o tanto que a paisagem sugere ou mesmo orienta os comportamentos para um hábito ou outro.
No Brasil, país onde nasci e onde estive a viver até os 32 completos, o verde de um estado como São Paulo, que pouca propaganda faz das suas praias se comparado a outros estados, é exuberante. A beleza é convidativa e por isso as pessoas costumam estar para lá e para cá, fazendo quilómetros na areia, até se a praia for uma barra e pouco mais.
A água nunca desagrada pela temperatura, mas arrisco dizer que muita gente no Brasil vai à praia sem ir à água, porque a exposição ao sol vale a pena, os petiscos distraem, ouve-se muita música, bebe-se muito muito mesmo - e isso sequer combina com natação. O clima geral de exibição não torna indispensável mergulhar, relaxar os músculos, olhar o céu, sentir as ondas a nos erguerem e a nos colocarem de volta à altura original and so on.

O lado bom da coisa

Vou pensar no lado bom e alinhavar ideias, antes que elas caiam em desuso por cedência minha ao desânimo.

Meu ponto é o seguinte: li contos machadianos com particular atenção, alguns repetidas vezes, como o famigerado "Missa do Galo", porém não gostaria de (re)vivê-los, principalmente no que diz respeito aos ambientes, ora de um profundo cinismo ora de solidão.

Machado de Assis era um crítico inteligente. De acordo com a correspondência dele que vasculhei pra frente e pra trás, creio que não foi um masoquista nem deu testemunho de uma vida ou sórdida ou triste, enquanto escrevia. Documentava, incrementava, experimentava, mas não atravessou pela literatura alguns dramas humanos para nos aconselhar a abraçá-los, como quem acolhe o sofrimento.

Com esta apaixonada por literatura, que confusão se passa no terreno entre o dia a dia e a literatura, então? Não foi suficiente o aprendido na leitura desse mestre?

Não, solidão, hoje não quero me retocar
Nesse salão de tristeza onde as outras penteiam mágoas
Deixo que as águas invadam meu rosto
Gosto de me ver chorar
Finjo que estão me vendo
Eu preciso me mostrar
...


E finjo que finjo que finjo
Que não sei


Por vezes o espelho que eu seguro me mostra ambientes quase machadianos… Espelho certo? Pode ser esta a questão: estou a tomar emprestado um espelho muito bonito, que veio com uma moldura encantadora, mas que não me ajuda a enxergar!

Será o espelho capaz de me refletir em perspectiva? Dará conta do equilíbrio que eu desejo ver no meu micro ambiente? Será que consigo usá-lo para admirar o ambiente e depois alterá-lo, colocando-o de lado ao fim do uso?

E não se trata apenas de ver, trata-se de ver aquilo em que investi o carinho que mora dentro de mim… Ele mora. Mas desconfio que passeie pouco cá fora.

De todo modo, o que me inquieta, seja ou não resultado de um filtro errado para lidar com a realidade, o que me faz lembrar o mestre Machado de Assis, é que, entre muitas, há pelo menos uma maneira de considerar a construção de um ambiente familiar que me interessa e eu não acerto a mão, talvez nem teoricamente, porque esbarro aqui e ali na tal sensação de pouca coisa compartilhada. A cada vez que tento observar e nada mais, vejo a mim mesma entre sonhos, promessas, concepções muito românticas.

Com tudo o que implica, uma família é muito mais que um núcleo restrito e acolhedor. Nela os fracassos, ou antes o sentimento de fracasso, penetra com força e é preciso tomar cuidado com a possível falácia. Amigos de um e amigos de outro, sejam eles pares verdadeiros ou companhias que não nos dizem muito, amigos comuns, vizinhos…

Primeira conclusão substancial: geralmente não vale a pena colidir com quem quer que seja, porque há de tudo nas relações da família e o principal é atravessar. Colidir implica permanecer tempo demais no mesmo estado. Atravessar deve deixar uma sensação de vento no rosto, de menos monotonia, de mudança.


Benditas palavras

Crianças entregam-se aos nossos cuidados de maneira inocente. Dão pinta da curiosidade que sentem ao nos verem pegar um termómetro, tirar da lata colorida do chá do bebê uma ou duas colheres para misturar à água fumegante, abrir a gaveta das meias, seja lá o que for que estejamos a providenciar, geralmente às pressas. Arrisco dizer que em proporção muito parecida, esquecem-se de nós e do nosso movimento, se na televisão aparece publicidade cuja música fica bem acompanhada com umas palminhas que aprenderam a bater… Permitem-se estar em sintonia com o meio e, para a sorte da mãe de criança pequena, até certa altura ela é o meio!

Já não trago de volta as palavras bonitas que passaram por mim numa manhã recente, quando peguei meu filho ao colo, segurando um lenço de papel muito fino em uma das mãos, e nos sentamos no sofá. Mesmo sem apoio para as minhas costas, talvez por instinto não o inclinei para o lugar vazio ao meu lado, mas para o resguardo do meu próprio corpo.

Ele se sentia e se sente irritado porque desde há dez dias mais ou menos tem sempre alguém que quer limpar-lhe o nariz. Por isso primeiro empurrou a mão em que eu tinha o lenço. Em seguida, mais calmo, esqueceu o gesto de recusa. E eu, calma também, limpei devagar, sem esfregar, sem apertar aquele nariz redondo.

Sentindo serenamente o contato, coloquei em cada pé do meu menino uma meia quentinha, daquelas que minutos atrás ele mesmo tinha jogado em cima das almofadas da sala. Ajeitei a peça de roupa que ele vestia por baixo da blusa de lã e, impulsionada pelo calor da barriga, dei um abraço longo e afundei meu rosto no pescoço dele.

O cabelo só agora começa a crescer de verdade. É fino. Vai ganhando mais ou menos a cor do meu cabelo. Passa de preto a castanho mais claro. Quando comecei a notar cachos desse cabelo a quererem se formar, ele criava o hábito de pôr a mão entre os meus fios de cabelo, como forma de adormecer. Ainda não sabe que uns são mais lisos e outros mais crespos, às vezes encontra um nó e puxa com toda a força para rompê-lo.

E eu que nunca tive queixa de insónia, me pego a acordar no meio da noite, se a respiração dele está ofegante, se resmunga, se chora, se vira muitas vezes de um lado para outro no berço ao lado da cama em que eu durmo. Perco o sono desse jeito, mas não perco de todo a paciência. Passa a noite, mas não passa o gosto em pô-lo algumas noites entre o pai e eu. Porque ele se mexe bruscamente, mas também sabe procurar com uma mão o meu rosto. E nele faz festinhas.

As palavras doces e bonitas que assomam de repente, que assomaram no dia do colo e do lenço ou em outras horas encantadas do 1º ano de vida do meu filho, somem. Voltam a surgir por causa do milagre de certos momentos. Ainda bem que vão durar a um ritmo natural.