Pondera, Pandora, como se isto fosse um diário

Pondera, Pandora, como se trabalhasse para rever-se, inteira, neste diário

Um ou dois aforismos
Não sei explicar o motivo, mas sempre ouvi com um misto de curiosidade e desconfiança as pessoas que gostam de dar opinão introduzida mais ou menos assim: "como diz o poeta" ou "e como disse o outro". Apesar disso, coleciono alguns aforismos, cujos autores eu prefiro indicar a deixar no ar.

Teixeira de Pascoaes, por exemplo, tinha uns fantásticos: "Amar é dar à luz o amor, personagem transcendente"; "Só os olhos das árvores vêem a esperança que passa"; "Existir não é pensar; é ser lembrado"; "A indiferença que cerca o homem demonstra a sua qualidade de estrangeiro"; "Vivemos como num estado de transmigração para a nossa fotografia".

Ele viveu em Amarante! Pena que não se respire o mesmo ar nos dias de hoje...

O aforismo dele de que eu mais gosto, no entanto, entre os que saíram publicados pela Assírio & Alvim, traz o seguinte:

"A seara não pertence a quem a semeia, pertence ao bicho que a rouba e come".

Sendo homem da terra, do chão, dos cheiros da natureza, muito embora culto, eu só posso concordar. Para um espírito muito suave - a não ser quando sente-se desafiado -, esse tipo de sabedoria condensada é sem dúvida ensinamento.


domingo, 13 de novembro de 2011

"Nude series VIII", Georgia O'Keeffe



Não sei explicar por que gosto da pintora norte-americana, mas gosto!

Medicina, comportamento e cinema têm espaço no espaço público


"Conversas à noite sobre Cinema e Saúde | Auditório da Biblioteca Almeida Garrett
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Enquadramento 

“Num guião cinematográfico, os personagens e os cenários desenvolvem-se numa cadência sistematizada de eventos. Sobre um documento narrativo, ou argumento, sucedem-se os acontecimentos, cenas, diálogos e é com estes símbolos e sinais do cinema que o espectador, com a sua visão, interpreta, descodifica e organiza, no seu quadro vivencial, o que percepciona num filme. Também a Saúde, na sua dimensão individual, colectiva e cultural, ao reflectir os efeitos biológicos e psicoafectivos das Civilizações, está omnipresente nos roteiros cinematográficos. É justamente sobre essa simbologia e linguagem da Saúde, muitas vezes hermética e iniciática, que somos desafiados a expressar as nossas sensibilidades e perspectivas. 
Assim se cruzam os universos virtuais do cinema com a esfera cognitiva da saúde e da doença, permitindo-nos reflectir libertariamente, expressando visões e confrontando argumentos, sobre os mitos, ídolos e símbolos que promovemos, e sobre os cultos, vícios e modas com que desenhamos as nossas paisagens afectivas. 
Nestas tertúlias, de cumplicidades nocturnas e de arrojadas confabulações quase clandestinas, exploram-se estas ligações de complementaridade inesperada: é um processo que nos permite a todos, aprender a visionar e a argumentar, com ecletismo, abrangência e humanidade”. 
(Guilherme Macedo, Comissário e Moderador do ciclo) 

Conceito 

A iniciativa será composta por um conjunto de conversas, tendo como pano de fundo uma selecção de filmes de qualidade. As personalidades convidadas, com diferentes sensibilidades, são desafiadas a partilharem, com o público, as suas visões e argumentos sobre a temática de cada filme. 
Assim, procurar-se-á abordar um conjunto de aspectos comportamentais e as suas implicações ao nível da saúde. Longe de procurar promover qualquer discurso moralista, pretende-se sim, contribuir para uma informação esclarecida a partir da fruição de curtos excertos de um bem cultural de grande divulgação. 

Modelo 

O ciclo será composto por 3 sessões a realizar às segundas-feiras, durante o mês de Novembro de 2011, na cidade de Porto, no auditório da Biblioteca Almeida Garrett. 
As sessões, a realizar à noite a partir das 21h30, terão uma duração aproximada de 2 horas. Será uma conversa entrecortada pela projecção de excertos dos filmes seleccionados. O painel de personalidades participantes será constituído pelo autor da ideia e moderador do debate, Professor Doutor Guilherme Macedo, e por dois convidados. 
Cada sessão abordará temas específicos, sugeridos pelas películas, a desenvolver pelos participantes, mas procurar-se-á criar um fio condutor para o ciclo. 

Programa do ciclo 

Local – Biblioteca Almeida Garrett, Porto 

14 de Novembro (21h30) 
Intervenientes: Manuela Melo, Roma Torres e Guilherme Macedo (moderador) 
Filme: De Olhos Bem Fechados (1999) (Eyes Wide Shut) 

21 de Novembro (21h30) 
Intervenientes: Álvaro Costa, Carlos Tê e Guilherme Macedo (moderador) 
Filme: Easy Rider (1969) 

28 de Novembro (21h30) 
Intervenientes: Carlos Magno, Fernando Gomes e Guilherme Macedo (moderador) 
Filme: Maradona by Kusturica (2008) 

A iniciativa é da responsabilidade do Serviço de Gastrenterologia do Hospital de São João em parceria com a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. A produção do ciclo é realizada pela Ideias Maiores. 

Manuela Melo 
Licenciada em Biologia e Jornalista. 

Roma Torres 
Médico, Director do Serviço de Psiquiatria do Hospital de São João e Crítico de Cinema. 

Álvaro Costa 
Profissional de comunicação desde 1985, é actualmente comentador/apresentador da RTP Informação, e produtor de rádio na Antena 1 e Antena 3 da RDP. 

Carlos Tê 
Licenciado em Filosofia, letrista de Rui Veloso, Clã e Jafuméga, colaborações com Jorge Palma, e também cantor. Escreveu um romance, três contos e três peças de teatro musicais. 

Carlos Magno 
Jornalista, Analista Politico e Professor do Ensino Superior. 

Fernando Gomes 
Licenciado em Economia, foi campeão de basquetebol no FC Porto e presidente da Liga de Clubes de Basquetebol. Foi vice-presidente do FC Porto e administrador da sua SAD, assume actualmente a presidência da Liga Portuguesa de Futebol Profissional. 

Guilherme Macedo 
Médico, Director de Serviço de Gastrenterologia do Hospital de São João e Professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto."



É ou não é muito bom que alguém se lembre de criar e de promover um evento como esse?

Fiquei com vontade de ir, mas infelizmente nunca vi esses 3 filmes. Eu ouviria ao mesmo tempo opiniões e informações, conhecimento de segunda mão, como se costuma dizer.

Até a data de cada uma das conversas, no entanto, ainda tenho oportunidade de conhecer os filmes e, estando presente nas discussões, apanhar depressa o que disserem... ok.

Caso decida ir, faço questão de comentar no blog.


PS - um documentário sobre o Maradona? Deve ser daquelas situações que calham a nós por sermos muitas vezes do contra... Não admiro o jogador argentino! Mas gosto do que já vi de Kusturica. Assisti a dois filmes dele: "Promessas", de 2007, e "Tempo dos ciganos", de 1988. Difíceis de resumir e de comparar a outras produções. 


sábado, 12 de novembro de 2011

Uma nota a mais sobre traduções ou a cultura nos bastidores


"Giovanni Pontiero nasceu em Glasgow, Escócia, em 10 de fevereiro de 1932 e faleceu no dia do seu 64o aniversário em Manchester, Inglaterra. Estudou na Universidade de Glasgow, onde concluiu a licenciatura e apresentou tese de doutoramento em 1962 sobre a poesia de Manuel Bandeira. Durante quase toda a sua vida lecionou literatura latino-americana na University of Manchester Institute of Science and Technology - UMIST. Desenvolveu intensa atividade como pesquisador, principalmente no campo dos estudos literários portugueses e brasileiros, sendo autor de numerosos artigos, ensaios, conferências, entradas em enciclopédias e traduções. O livro The Translator’s Dialogue, publicado pela Benjamins Translation Library em 1997, é uma homenagem póstuma a Pontiero e contém uma coletânea dos seus ensaios sobre o processo da tradução literária e o seu impacto na percepção da cultura, o trabalho e os deveres do tradutor, a lacuna existente entre a teoria e a prática, simultaneamente identificando problemas e sugerindo estratégias para melhor resolver os obstáculos que ocorrem no ato tradutório. Por mais de três décadas, introduziu, em países de língua inglesa, obras de autores brasileiros e portugueses, como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Clarice Lispector e José Saramago. Obteve o Prêmio de Tradução Camões (1968), Prêmio Rio Branco (1970), Foreign Fiction Award do jornal The Independent (1993), Outstanding Translation Award da American Literary Translator´s Association (1994), e Prêmio Teixeira Gomes do governo português (1995)."


Quem é Giovanni Pontiero, a figura de quem o excerto acima nos fala?

Dois ou três posts atrás, destaquei um texto jornalístico brasileiro que apresenta o projeto de tradução de Benjamin Moser, autor da mais recente biografia de Clarice Lispector.

Fiquei com o argumento arrolado pela revista na cabeça, pois segundo o jornalista que assina a curta matéria, Moser estaria interessado em publicar traduções de Clarice Lispector para dar uma segunda chance à autora em língua inglesa. 

E então? Os livros de Clarice foram mal traduzidos? 

Bom, sem autoridade para responder "sim" ou "não", pois não traduzo, adianto que ela teve boa parte da obra traduzida por um profissional de gabarito, o Sr. Giovanni Pontiero, já falecido. Há também outros nomes, como o de Elizabeth Lowe McCoy e o de Gregory Rabassa. A tradução feita por Rabassa, por exemplo, teve boa recepção.

Também ela, Clarice, foi tradutora, para quem não sabe.

Se, na visão de Moser, apenas profissionais pouco sintonizados com a literatura tiveram seu trabalho associado ao de Clarice, no caso das traduções para o inglês, como é que ele foi capaz de montar uma equipe? Serão todos especialistas em literatura brasileira? Em literatura latinoamericana, ao menos?

Lembrei-me de repente que a Profª Doutora Ana Luísa Amaral, de quem falei rapidamente noutro post, formou equipa para fazer frente ao desafio das Novas cartas portuguesas. Note-se que ela e pelo menos uma das co-autoras do livro dão-se muito bem, a equipa está ao abrigo de um instituto, que por sua vez funciona à luz da experiência de uma faculdade de Letras. E deve haver a mediação, o acompanhamento de alguma fundação, como a Calouste Gulbenkian... A própria Profª Ana Luísa dá aulas acerca das Novas cartas e conhece o contexto em que foram escritas e recebidas.

É exigência a mais querer uma imprensa que explique aos leitores como são os bastidores de um projeto, uma vez que elementos da nossa cultura estão nele envolvidos? Ou por acaso algum jornalista sério está à espera de que o leitor corra atrás das informações de gabinete que ele ou não pesquisou ou não organizou textualmente? Não me parece que assim seja. Cada qual na sua função, pelo menos até que as funções se misturem porque temos cabeças para isso...






PS - em Portugal, há um canal de televisão que exibe aos domingos um programa cujo nome é "Câmara Clara". Tem qualquer coisa no estilo das entrevistas com que não consigo simpatizar. De qualquer modo, há trabalho antes de o programa ir ao ar, há um esforço para fazer chegar até as pessoas que vêem TV aberta um pouco do que se passa no âmbito da cultura nacional. Acho que é o mínimo, não é luxo.

Pandora por Waterhouse



John William Waterhouse, pintor nascido em 1849, na Inglaterra, esforçou-se para ser escultor; no entanto algo fugiu ao controle e ele se transformou num pintor. Especializou-se em figuras femininas relacionadas à Mitologia. Muito cuidadoso com os detalhes, recebeu críticas negativas por criar cenas demasiado artificiais.

O quadro acima foi sugestão de uma amiga que entende mais de pintura do que eu. Ela própria desenha e pinta, sob o olhar atento de uma professora oriental. Se não me engano, o interesse por estudar Chinês veio precisamente daí, quer dizer, o interesse pelo idioma significava uma hipótese de encontro mais íntimo com uma parte preciosa da cultura oriental.

Lívia sugeriu outro quadro, em que Pandora, de cabelos negros e roupa mais escura, abria uma caixa grande, apoiada num pedestal improvisado. Estava ajoelhada, com ar que me agrada menos do que o desta Pandora.

Gosto desta Pandora comedida, cabelo atado à nuca, curiosa com um objeto que pode reter entre as duas mãos. 

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Esses ex-alunos da Fundação me matam!

Conversando com um ex-aluno alegre e ativo, coisa de minutos atrás mesmo, senti uma fagulha:
- Ah, vou nessa! Vou mostrar no blog textos diferentes na origem... feitos por causa do estado de graça da melhor noite da minha vida.

Paulo Leminski dizia que para um poema são precisos anos de vida! As imagens que ele foi buscar são todas muito palpáveis. Querem ver?

um bom poema leva anos
   cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
   seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
   sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
   três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
   uma eternidade, eu e você,
caminhando junto


Pra mim fica mais claro, depois dessa sugestão do poeta, que os meus pequenos poemas de comoção pelo nascimento do meu filho já aprendiam a andar antes de o Átila chegar a esse mundo.

Sendo muito franca, sou adepta dessa concepção de evolução. Eu própria tinha um sonho com o meu filho, desde a minha adolescência. No sonho ele era o Átila (o rei huno, não, mas o meeeeu Átila), embora o sobrenome/apelido fosse outro - que não é o meu nem o do pai dele.
Estávamos a brincar num parque de diversões dentro de uma praça circular, grande.
Eu já era uma mulher tensa (não!) e ele tanto me compreendia, que fazia as vezes de amigo, desde pequeno; dizia para eu me acalmar, porque ele gostava de todas as pessoas da família, inclusive daquelas de quem eu, como mãe perturbada, sentia ciúmes...

Fujo de comentar mais o sonho recorrente, porque já calhou a mim, mais de uma vez, essa onda de pensar que antevejo e vislumbro! Não refuto a mão que ele estendia para mim em sonho, claro que não, mas fazer figura de má diante dele, num futuro próximo, é pior do que pesadelo, seria realidade a mais para mim.
Eu sonhava com meu filho, entenda-se isso como for possível.

E na sequência do nascimento dele numa maternidade pública da cidade do Porto, cheguei a casa em Amarante e fiz uns poemas. Estava profundamente agradecida por ter estado com outra mãe, num quarto de hospital simples, sem a barreira de uma sala só para bebês. Em Portugal, filhos ficam ao lado da cama das mães, num bercinho em acrílico. O meu, como o de muitas outras, presumo eu, passou toda a noite deitado em cima de mim, barriga contra barriga. Foi assim que eu vi as horas caminharem.

É de um fruto dessas horas - e otras cositas más - que este post trata.

Já uma vez publiquei poemas numa revista chamada Crioula; depois mandei mais uns para o blog de uns amigos, o Jean Narciso Bispo Moura e o Luciano Melo. Lanço aqui e agora as aspirações a hai-kai que mais me tocam, nessa aventura de ser mãe:






Atravessamos a noite
pela janela.
Quarto de hospital.

 
Mãe e filho numa maratona:
reta final do milagre
de (re)nascer.

 
Naquele que foi nosso ninho,
só uma moldura continha um vidro.
A ternura transbordava.

Projeção do instinto maternal,
pele com pele,
placidez.

Projeto-resposta
à pergunta-essência:
“Estás em mim?”.
 
 

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

- Clarice!

"Francisco Quinteiro Pires

Literatura

09.11.2011 12:21

Para inglês entender

Edições de A Hora da Estrela, vertida por Moser para a New Directions, buscam recuperar o tom literário da escritora, perdido em traduções anteriores. 




Foto: Luiz Maximiano

A escritora Clarice Lispector (1920-1977) ganhou uma segunda chance no mundo que fala inglês. Cinco dos seus livros, Perto do Coração Selvagem, A Paixão Segundo G.H., Água Viva, A Hora da Estrela e Um Sopro de Vida, vão receber novas traduções. Coordenador do projeto, Benjamin Moser vê na empreitada a oportunidade de Clarice ser mais conhecida nos Estados Unidos e no Reino Unido. Segundo Moser, dada a má qualidade das versões em inglês, quem lê a autora brasileira corre o risco de não entendê-la. “O erro das antigas traduções foi querer tornar o seu estilo mais legível”, diz.
Autor de Clarice, uma Biografia (Cosac Naify), Moser considera praticamente impossível traduzir os livros da ficcionista. “O dela não é um português normal, ele é agressivamente estranho.” Moser assina a nova tradução de A Hora da Estrela (1977), a ser publicada em novembro pela New Directions (EUA) e pela Penguin Classics (Reino Unido). Alison Entrekin vai traduzir Perto do Coração Selvagem (1944); Idra Novey, A Paixão Segundo G.H. (1964); Stefan Tobler, Água Viva (1973); e -Johnny -Lorenz, Um Sopro de Vida (1978)."

Tudo o que você acabou de ler, e que está entre aspas, eu li na tela/ecrã do meu computador há minutos, acessando o site da revista Carta Capital.

E li com ressalvas.

Conheço bem os contos de Clarice Lispector. As histórias infantis, idem. Os romances, ia conhecendo conforme era preciso tratar deles com meus antigos alunos. Não os estudei à exaustão, confesso.

Estudo desde aproximadamente ano e meio, novamente, Clarice Lispector, inclusive o lado missivista de Clarice. Ela é autora de cartas muito afáveis, dirigidas às irmãs e aos amigos, por exemplo.

Em minha pesquisa, tento dar uma forma a esse cruzamento entre ficção e não-ficção, considerando todas as implicações que o gênero carta tem. Sem falar no fato de ela ter produzido boa parte do que eu estudo enquanto vivia no exterior a experiência de ser estrangeira - até para ela própria, em certa medida.

Para isso conto com uma fortuna crítica que já tem seu peso. Ressalto que existem no mercado livros excelentes de pesquisadores brasileiros, livros da Universidade de São Paulo, livros oriundos de anos de pesquisa em outras instituições do Brasil.

Há dois anos estive na Casa de Cultura Japonesa da USP, para acompanhar um lançamento importante.
Era Nádia Battella Gotlib a dar a conhecer uma nova edição da fotobiografia de Clarice Lispector.

Comprei, li, emprestei, recebi de volta e tornei a folhear.

E, já aqui em Portugal, dei-me conta do rebuliço em torno do lançamento da biografia escrita pelo pesquisador inglês referido no texto da Carta Capital. A coisa soou meio esquisita para mim.

Jogaram confete a mais, a meu ver...

Cheguei a escrever para uma revista portuguesa que divulgou o lançamento, questionando a ênfase com que apresentavam ao público o trabalho dele, num período tão próximo do relançamento da fotobiografia anterior. Eu, pelo menos, não havia notado semelhante alarido por causa do trabalho feito pela antiga professora da USP, Nádia Battella Gotlib.

Não li resposta da revista para o meu argumento.

E agora, numa revista brasileira, mais confete.

Que acham do texto? Que pensam do tom usado?

Vou investigar: Clarice ganha uma 2ª chance perante o público que lê em língua inglesa? Bom, prefiro saber quem traduzia a obra dela até então!

Isso de condenar traduções é delicado. Quem quer criticar tem que saber ao pormenor o texto original, depois tem que saber apontar os problemas pontuais da tradução, e tem que explicar o que louva numa tradução nova. Nessa seara não basta vir com uma noção vaga, uma impressão ou coisa que o valha.

Clarice Lispector já é, de algum modo, conhecida nos Estados Unidos... Tem críticos nesse país. É estudada nesse país. Moser desejará, portanto, que ela seja lida pelo grande público? Será? Só isto rendia uma reportagem inteira da Carta Capital. Assim traçavam para os brasileiros, para os lusófonos, para os amantes de literatura, para os conhecedores de Clarice (e muitos jovens no Brasil o são, por causa do Ensino Médio), enfim, um panorama de leitura de autores lusófonos nos Estados Unidos. E muitas questões adjacentes vinham em seguida. E o hábito de criticar tradutores - os brasileiros são mencionados sem o menor cuidado, em Portugal - era passado em revista. E tal e tal e tal.

Se o próprio Moser vai traduzir, começa a cheirar a reserva de mercado no âmbito das Letras... Achei que apenas os professores universitários mais acostumados faziam dessas!

Por fim, o que depreender daqui: "Moser considera praticamente impossível traduzir os livros da ficcionista. 'O dela não é um português normal, ele é agressivamente estranho.'"?

Clarice pode ser agressiva, estou com um conto em mãos particularmente engraçado nesse sentido. E olha que eu estive às voltas, na minha cabeça, com aquela ideia de ser tosca. A protagonista do conto se refugia um pouco nessa condição, quando o mundo exterior a sufoca de monotonia. Mas o português de Clarice será agressivo? O que isso quer dizer? Traduza, por favor, em termos de verbos, de substantivos, de adjetivos, de montagem do discurso direto, de metáforas, de pontuação, de silenciosas omissões de palavras, de idioleto...

Terminar um texto informativo com esses rasgos de mistério não me seduz, nem como leitora nem como pesquisadora. Aliás, nem o lugar comum ligeiramente alterado, do título "Para inglês entender", tem a minha simpatia. Sugere um questionamento que o texto frustra. Ajoelhou, tem que rezar, senhor jornalista!

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Não é incoerência, é só uma ideia

Houve um post que terminei com a ideia de que, às mulheres, fica bem serem toscas. Acrescento que fica bem às mulheres serem toscas, charmosas, prendadas, depende do contexto.
Trato já de me defender, porque hoje a palavra "tosco" anda em muitas bocas. Recorro ao Caldas Aulete, na versão disponível no UOL:

(tos.co) [ô]

1. Que não é lapidado, polido, nem lavrado; tal como a natureza o produziu; BRUTO: "Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, dura, tosca, bruta, informe." (Padre António Vieira)  
2. Feito sem capricho (móveis toscos); MAL-ACABADO
3. Que revela falta de instrução, de cultura: "Ele teria tido certas dúvidas de se abrir com um homem tão tosco..." (Antônio Callado, Bar Don Juan))
4. Feito sem esmero; GROSSEIRO; MALFEITO: escada cavada em toscos degraus.
5. Rude, rústico, grosseiro (linguajar tosco): "Uma tumba negra jazia ao lado e uma cruz tosca no chão cravada" (Almeida Garrett)
[F.: Do lat. vulg. tuscus, 'dissoluto'.]

A minha aspiração é qualquer coisa como dispor mais vezes da liberdade de não caprichar, de dar menos polimento às falas e aos gestos, para economizar energia.
Ou, por outro ângulo, quero dizer que a mim ficava bem dar menos polimento, para esperar menos dos outros também. Estarei “a perder qualidades”, como dizem os portugueses?
Não sou irrepreensível, longe disso, e ninguém o é, então por qual motivo insistir na amabilidade a todo custo, a toda hora? Se calhar, esse excesso abre caminho para pessoas que não pediram para entrar… E com certeza obriga a um gasto de energia.
E certas horas eu quero desligar o botão, para poupar energia.
Parece que pouca polidez, isto é, pouca atenção aos modos, à comunicação, ao bom senso, reina e não se trata de agir com maldade! Deve ser falta de treino da maioria das pessoas. Pode ser economia de energia.
Recentrando a questão, quem dera eu fosse mais tosca, porque ser amável e despojada ao mesmo tempo ainda está acima das minhas possibilidades. É uma das minhas aspirações, mas por ora eu não alcanço!
Fosse eu mais tosca, no sentido de mais relaxada, e estavam postos de parte muitos mal entendidos… como igualmente estavam garantidas algumas cenas divertidas.
Nosso lado impuro, mal acabado, tem sua graça natural! É tal e qual a risada que a leitura da primeira estrofe desse poema do Leminski provoca:

“Conheço esta cidade
como a palma da minha pica.
Sei onde o palácio
sei onde a fonte fica,

Só não sei da saudade
a fina flor que fabrica.
Ser, eu sei. Quem sabe,
esta cidade me significa.”

Se eu fosse aqui e ali mais tosca, eu ria mais, os outros riam mais. Éramos nós mesmos, de cabeça e coração livres para darmos a faceta bem-educada quando estivéssemos em curva ascendente. Vindo a descendente, mudávamos o registro para o modo tosco, sem culpas…

Não faz muitos anos aprendi algo semelhante a essa ideia que eu encontrei em Leminski, que eu referi no outro post por causa de Adélia Prado e que eu mesma sinto, quando a minha insistência em dizer “obrigada”, “por favor” e afins soa como um exagero meu, já assumido neste texto. Uma velha amiga, psicóloga de profissão, me dizia que nem sempre vale a pena ser "boa moça". Dar constantes sinais de boa educação, cuidar que nos tomem invariavelmente por calmas, doces e flexíveis não nos torna mais respeitadas. Podiam me chamar “fresca”, como se diz em São Paulo, eu aceitava; eu aceito, desde há algum tempo, que me chamem “tosca”.

Faz alguns dias estive na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. O anfiteatro nobre estava cheio, cadeiras ocupadas por uma plateia disposta a ouvir e ver mulheres inteligentes e divertidas. Não fazíamos a menor ideia acerca das habilidades delas para os afazeres domésticos, não tínhamos conhecimento da disponibilidade para agirem como boas moças, educadas e passivas.
Estava prevista a presença de Maria Teresa Horta, autora do livro em lançamento; de Ana Luísa Amaral, uma das professoras encarregadas de comentar o livro; de Maria Luísa Malato, a outra professora encarregada de apresentar o livro à plateia.  
Maria Teresa Horta, a autora, é fantástica.
Não vou desviar dos adjetivos, neste caso. Nem sei se os evito normalmente. Hoje sem dúvida não quero evitar.
Ela se empolga ao falar de mulheres cuja biografia estudou anos a fio; empolga-se ao falar das amigas, uma delas presente, a sua editora na Dom Quixote; empolga-se ao falar de livros; empolga-se se alguém assinala a importância que ela tem na assunção da sexualidade das mulheres mais velhas; empolga-se quando a plateia ri e acompanha o raciocínio delas. Empolga-se. E recomenda que outras mulheres excedam, ousem abrir os olhos para o que pode ser a intimidade de uma mulher, leiam e façam-se perguntas sobre o que mulheres de outras épocas viveram.
Li Novas cartas portuguesas, livro cuja autoria ela divide com mais duas mulheres (Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno), várias vezes desde o meu 1º ano de faculdade.  
Vou ler As luzes de Leonor, sobre Leonor de Almeida, a Marquesa de Alorna, para saborear a vida de mulheres que até em praça pública estiveram, à espera da condenação. Segundo Maria Teresa Horta, no momento crucial da execução, a avó de Leonor, a Marquesa de Távora, não agiu como quem faz concessões, não deu aos outros o gosto de vê-la, perturbada e temerosa, a consentir sem mais; respondeu ao carrasco com firmeza e precisão. Para dispor da nossa energia é necessária por vezes uma dose de manipulação.