Pondera, Pandora, como se isto fosse um diário

Pondera, Pandora, como se trabalhasse para rever-se, inteira, neste diário

Um ou dois aforismos
Não sei explicar o motivo, mas sempre ouvi com um misto de curiosidade e desconfiança as pessoas que gostam de dar opinão introduzida mais ou menos assim: "como diz o poeta" ou "e como disse o outro". Apesar disso, coleciono alguns aforismos, cujos autores eu prefiro indicar a deixar no ar.

Teixeira de Pascoaes, por exemplo, tinha uns fantásticos: "Amar é dar à luz o amor, personagem transcendente"; "Só os olhos das árvores vêem a esperança que passa"; "Existir não é pensar; é ser lembrado"; "A indiferença que cerca o homem demonstra a sua qualidade de estrangeiro"; "Vivemos como num estado de transmigração para a nossa fotografia".

Ele viveu em Amarante! Pena que não se respire o mesmo ar nos dias de hoje...

O aforismo dele de que eu mais gosto, no entanto, entre os que saíram publicados pela Assírio & Alvim, traz o seguinte:

"A seara não pertence a quem a semeia, pertence ao bicho que a rouba e come".

Sendo homem da terra, do chão, dos cheiros da natureza, muito embora culto, eu só posso concordar. Para um espírito muito suave - a não ser quando sente-se desafiado -, esse tipo de sabedoria condensada é sem dúvida ensinamento.


segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Calma


"Briga, chuva e muita festa: Ultraje a Rigor rouba a cena no SWU
13/11/2011 18h50 • Guilherme Guedes


A briga aconteceu entre integrantes das equipes de Peter Gabriel e do Ultraje a Rigor, segundo Roger, vocalista da banda brasileira. Eles discutiram porque o show do Ultraje atrasou em razão da chuva. 

"Muito obrigado ao nosso amigo Chris Cornell". A ironia de Roger Moreira, vocalista e guitarrista do Ultraje a Rigor, foi a faísca que faltava para disparar uma briga entre roadies e membros da produção do grupo paulista com integrantes da equipe do cantor Peter Gabriel. Ficou confuso? Pois é. O público do SWU Music & Arts Festival também.

Tudo começou com a chuva forte que cobriu Paulínia no meio da tarde, pouco antes da apresentação do Ultraje no Palco Consciência. Os ventos e a água atrasaram a montagem do palco, e o show do grupo precisou ser atrasado, antecipando a performance da Tedeschi Trucks Band, no Palco Energia.

A produção de Peter Gabriel, que veio ao Brasil acompanhado de uma orquestra, passou a pressionar o grupo brasileiro para encurtar o show e tentar compensar o atraso, que a essa altura beirava as duas horas. Com informações confusas, Roger expôs a confusão ao público, mas jogou a culpa em Cornell. A pancadaria no palco (que você vê na galeria acima) atiçou a plateia, que tomou partido do Ultraje a proporcionou um dos shows mais animados desta edição do festival.

Após a baderna, os refrãos de faixas como É Tudo Filha da P**a e Nada a Declarar ganharam outro significado, com palavrões berrados, todos direcionados injustamente ao vocalista doSoundgarden. Em determinado momento, Roger - ainda mais disposto a provocar "os gringos", deixou a guitarra de lado para simular um demorado strip-tease, seguido por mais uma provocação verbal: "Nós temos bastante tempo de palco, mesmo".

Ao fim de O Chiclete - cujo refrão "bum-bum-bundão" gerou coros de "Cornell, vai tomar no c*" - Roger não perdoou. Traduziu a frase e a direcionou mais uma vez ao ex-vocalista do Audioslave: "Asshole! Big asshole! Big, huge, asshole!".

Sob fortes aplausos, o quarteto encerrou a apresentação com o sucesso Nós Vamos Invadir Sua Praia. Depois do coro "mais um, mais um" da plateia, Roger e o baterista Bacalhau tentaram puxar Marilou, cortada no meio pela produção do evento.

Revoltado, Bacalhau emendou em um solo catársico de bateria, que terminou com as peças do instrumento espalhadas pelo palco, jogadas e chutadas pelo músico. O público adorou, e a banda também. Toda a equipe do Ultraje aplaudiu o público após o fim, em uma bonita - ainda que injusta - exaltação do rock nacional."


Nunca estive num show/concerto do grupo de rock Ultraje a Rigor, criado há cerca de 30 anos em São Paulo.

Gosto de várias músicas deles, e me lembro agora de "Eu me amo" e de "Terceiro", que tem uns versos engraçados:

Todo equipado, preparado na linha de partida
Daqui a pouco vai ser dada a saída
Todo mundo nervoso e eu não tó nem aí (O importante é competir!)
...

Se eu me esforço demais vou ficar cansado
Já dá pra enganar eu ficando suado
Se reclamarem eu boto a culpa no patrocinador


É meio cínica essa letra de música, quem sabe irônica, mas não passa de troça. O nome do grupo, de resto, também tem esse espírito de brincadeira e de ruptura com as convenções.

A irreverência de "Terceiro" não se aproxima do nível de cinismo de alguns filmes recentes de Woody Allen, por exemplo, isso para criar um ponto de comparação com um ícone, uma figura badalada que muitas vezes deu-nos mostras do seu humor e da sua inteligência. 

Estou a pensar em "Match point", de 2005, que me fez sair da sala de cinema atônita e desconfortável com a mudança de registro. O site do IMDB destaca a fala de uma das personagens do filme: 


- The man who said 'I'd rather be lucky than good' saw deeply into life" .


O argumento dela faz supor que é ruim ser boa pessoa. Mais vale ter sorte e, nessa levada, para estar com os amigos, mais vale ir ao cassino, ao bingo etc. Pelo menos não se rompe o padrão, é sortudo com sortudo, sem hipótese para as pessoas que aceitam a bondade sem aquele erguer de ombros, sem desdém.

Enfim, falei no Ultraje, fiz uma digressão até Woody Allen e quero dizer o quê?

Quero dizer que não imaginava o Roger, vocalista do grupo Ultraje a Rigor, a criar confusão a partir de um mal entendido com gente que fala outro idioma e que foi ao Brasil para participar num evento cultural. É assim mesmo, começa-se uma briga - que poderia ter tomado outras proporções -, ficam na memória as fotografias da tonteria (que eu não faço questão de publicar), as palavras confusas, o mal estar? Isso dá cá uns sinais de respeito pelo público incríveis! 

E como se não bastasse a trapalhada, a falta de jeito, um jornalista do UOL apresenta o incidente como um momento alto... ops!  

Não gosto muito da minha versão moralista, que já me rendeu inimizades. Não acredito nisto de julgar com dureza e de criar um campo, como se fosse um campo magnético, para me proteger da influência perniciosa de todas as pessoas más! Lado negro cada um tem o seu, inclusive eu. Não quero sublinhar esse lado do Roger.

Fato é que lado bom cada um tem o seu, também. Até que se prove o contrário. 


Mais valia saber que o Roger tocou descontraidamente e depois foi andar na chuva, ao invés de assistir à apresentação do artista que o sucedia no palco. Ele podia ou não podia simplesmente abdicar do espetáculo de quem o chateou? Era bem mais simples. E se alguém achava graça nisso, era ele. Continuávamos a lembrar dele como um cara gozador e pronto.

Reagir provocando, inflamar-se à toa, misturar o atropelo casual com desrespeito pelos artistas brasileiros e tal é investimento mal feito. Bobagem de quem perdeu a compostura. Tem direito, ok, mas que seja em casa dele... 

domingo, 13 de novembro de 2011

"Nude series VIII", Georgia O'Keeffe



Não sei explicar por que gosto da pintora norte-americana, mas gosto!

Medicina, comportamento e cinema têm espaço no espaço público


"Conversas à noite sobre Cinema e Saúde | Auditório da Biblioteca Almeida Garrett
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Enquadramento 

“Num guião cinematográfico, os personagens e os cenários desenvolvem-se numa cadência sistematizada de eventos. Sobre um documento narrativo, ou argumento, sucedem-se os acontecimentos, cenas, diálogos e é com estes símbolos e sinais do cinema que o espectador, com a sua visão, interpreta, descodifica e organiza, no seu quadro vivencial, o que percepciona num filme. Também a Saúde, na sua dimensão individual, colectiva e cultural, ao reflectir os efeitos biológicos e psicoafectivos das Civilizações, está omnipresente nos roteiros cinematográficos. É justamente sobre essa simbologia e linguagem da Saúde, muitas vezes hermética e iniciática, que somos desafiados a expressar as nossas sensibilidades e perspectivas. 
Assim se cruzam os universos virtuais do cinema com a esfera cognitiva da saúde e da doença, permitindo-nos reflectir libertariamente, expressando visões e confrontando argumentos, sobre os mitos, ídolos e símbolos que promovemos, e sobre os cultos, vícios e modas com que desenhamos as nossas paisagens afectivas. 
Nestas tertúlias, de cumplicidades nocturnas e de arrojadas confabulações quase clandestinas, exploram-se estas ligações de complementaridade inesperada: é um processo que nos permite a todos, aprender a visionar e a argumentar, com ecletismo, abrangência e humanidade”. 
(Guilherme Macedo, Comissário e Moderador do ciclo) 

Conceito 

A iniciativa será composta por um conjunto de conversas, tendo como pano de fundo uma selecção de filmes de qualidade. As personalidades convidadas, com diferentes sensibilidades, são desafiadas a partilharem, com o público, as suas visões e argumentos sobre a temática de cada filme. 
Assim, procurar-se-á abordar um conjunto de aspectos comportamentais e as suas implicações ao nível da saúde. Longe de procurar promover qualquer discurso moralista, pretende-se sim, contribuir para uma informação esclarecida a partir da fruição de curtos excertos de um bem cultural de grande divulgação. 

Modelo 

O ciclo será composto por 3 sessões a realizar às segundas-feiras, durante o mês de Novembro de 2011, na cidade de Porto, no auditório da Biblioteca Almeida Garrett. 
As sessões, a realizar à noite a partir das 21h30, terão uma duração aproximada de 2 horas. Será uma conversa entrecortada pela projecção de excertos dos filmes seleccionados. O painel de personalidades participantes será constituído pelo autor da ideia e moderador do debate, Professor Doutor Guilherme Macedo, e por dois convidados. 
Cada sessão abordará temas específicos, sugeridos pelas películas, a desenvolver pelos participantes, mas procurar-se-á criar um fio condutor para o ciclo. 

Programa do ciclo 

Local – Biblioteca Almeida Garrett, Porto 

14 de Novembro (21h30) 
Intervenientes: Manuela Melo, Roma Torres e Guilherme Macedo (moderador) 
Filme: De Olhos Bem Fechados (1999) (Eyes Wide Shut) 

21 de Novembro (21h30) 
Intervenientes: Álvaro Costa, Carlos Tê e Guilherme Macedo (moderador) 
Filme: Easy Rider (1969) 

28 de Novembro (21h30) 
Intervenientes: Carlos Magno, Fernando Gomes e Guilherme Macedo (moderador) 
Filme: Maradona by Kusturica (2008) 

A iniciativa é da responsabilidade do Serviço de Gastrenterologia do Hospital de São João em parceria com a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. A produção do ciclo é realizada pela Ideias Maiores. 

Manuela Melo 
Licenciada em Biologia e Jornalista. 

Roma Torres 
Médico, Director do Serviço de Psiquiatria do Hospital de São João e Crítico de Cinema. 

Álvaro Costa 
Profissional de comunicação desde 1985, é actualmente comentador/apresentador da RTP Informação, e produtor de rádio na Antena 1 e Antena 3 da RDP. 

Carlos Tê 
Licenciado em Filosofia, letrista de Rui Veloso, Clã e Jafuméga, colaborações com Jorge Palma, e também cantor. Escreveu um romance, três contos e três peças de teatro musicais. 

Carlos Magno 
Jornalista, Analista Politico e Professor do Ensino Superior. 

Fernando Gomes 
Licenciado em Economia, foi campeão de basquetebol no FC Porto e presidente da Liga de Clubes de Basquetebol. Foi vice-presidente do FC Porto e administrador da sua SAD, assume actualmente a presidência da Liga Portuguesa de Futebol Profissional. 

Guilherme Macedo 
Médico, Director de Serviço de Gastrenterologia do Hospital de São João e Professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto."



É ou não é muito bom que alguém se lembre de criar e de promover um evento como esse?

Fiquei com vontade de ir, mas infelizmente nunca vi esses 3 filmes. Eu ouviria ao mesmo tempo opiniões e informações, conhecimento de segunda mão, como se costuma dizer.

Até a data de cada uma das conversas, no entanto, ainda tenho oportunidade de conhecer os filmes e, estando presente nas discussões, apanhar depressa o que disserem... ok.

Caso decida ir, faço questão de comentar no blog.


PS - um documentário sobre o Maradona? Deve ser daquelas situações que calham a nós por sermos muitas vezes do contra... Não admiro o jogador argentino! Mas gosto do que já vi de Kusturica. Assisti a dois filmes dele: "Promessas", de 2007, e "Tempo dos ciganos", de 1988. Difíceis de resumir e de comparar a outras produções. 


sábado, 12 de novembro de 2011

Uma nota a mais sobre traduções ou a cultura nos bastidores


"Giovanni Pontiero nasceu em Glasgow, Escócia, em 10 de fevereiro de 1932 e faleceu no dia do seu 64o aniversário em Manchester, Inglaterra. Estudou na Universidade de Glasgow, onde concluiu a licenciatura e apresentou tese de doutoramento em 1962 sobre a poesia de Manuel Bandeira. Durante quase toda a sua vida lecionou literatura latino-americana na University of Manchester Institute of Science and Technology - UMIST. Desenvolveu intensa atividade como pesquisador, principalmente no campo dos estudos literários portugueses e brasileiros, sendo autor de numerosos artigos, ensaios, conferências, entradas em enciclopédias e traduções. O livro The Translator’s Dialogue, publicado pela Benjamins Translation Library em 1997, é uma homenagem póstuma a Pontiero e contém uma coletânea dos seus ensaios sobre o processo da tradução literária e o seu impacto na percepção da cultura, o trabalho e os deveres do tradutor, a lacuna existente entre a teoria e a prática, simultaneamente identificando problemas e sugerindo estratégias para melhor resolver os obstáculos que ocorrem no ato tradutório. Por mais de três décadas, introduziu, em países de língua inglesa, obras de autores brasileiros e portugueses, como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Clarice Lispector e José Saramago. Obteve o Prêmio de Tradução Camões (1968), Prêmio Rio Branco (1970), Foreign Fiction Award do jornal The Independent (1993), Outstanding Translation Award da American Literary Translator´s Association (1994), e Prêmio Teixeira Gomes do governo português (1995)."


Quem é Giovanni Pontiero, a figura de quem o excerto acima nos fala?

Dois ou três posts atrás, destaquei um texto jornalístico brasileiro que apresenta o projeto de tradução de Benjamin Moser, autor da mais recente biografia de Clarice Lispector.

Fiquei com o argumento arrolado pela revista na cabeça, pois segundo o jornalista que assina a curta matéria, Moser estaria interessado em publicar traduções de Clarice Lispector para dar uma segunda chance à autora em língua inglesa. 

E então? Os livros de Clarice foram mal traduzidos? 

Bom, sem autoridade para responder "sim" ou "não", pois não traduzo, adianto que ela teve boa parte da obra traduzida por um profissional de gabarito, o Sr. Giovanni Pontiero, já falecido. Há também outros nomes, como o de Elizabeth Lowe McCoy e o de Gregory Rabassa. A tradução feita por Rabassa, por exemplo, teve boa recepção.

Também ela, Clarice, foi tradutora, para quem não sabe.

Se, na visão de Moser, apenas profissionais pouco sintonizados com a literatura tiveram seu trabalho associado ao de Clarice, no caso das traduções para o inglês, como é que ele foi capaz de montar uma equipe? Serão todos especialistas em literatura brasileira? Em literatura latinoamericana, ao menos?

Lembrei-me de repente que a Profª Doutora Ana Luísa Amaral, de quem falei rapidamente noutro post, formou equipa para fazer frente ao desafio das Novas cartas portuguesas. Note-se que ela e pelo menos uma das co-autoras do livro dão-se muito bem, a equipa está ao abrigo de um instituto, que por sua vez funciona à luz da experiência de uma faculdade de Letras. E deve haver a mediação, o acompanhamento de alguma fundação, como a Calouste Gulbenkian... A própria Profª Ana Luísa dá aulas acerca das Novas cartas e conhece o contexto em que foram escritas e recebidas.

É exigência a mais querer uma imprensa que explique aos leitores como são os bastidores de um projeto, uma vez que elementos da nossa cultura estão nele envolvidos? Ou por acaso algum jornalista sério está à espera de que o leitor corra atrás das informações de gabinete que ele ou não pesquisou ou não organizou textualmente? Não me parece que assim seja. Cada qual na sua função, pelo menos até que as funções se misturem porque temos cabeças para isso...






PS - em Portugal, há um canal de televisão que exibe aos domingos um programa cujo nome é "Câmara Clara". Tem qualquer coisa no estilo das entrevistas com que não consigo simpatizar. De qualquer modo, há trabalho antes de o programa ir ao ar, há um esforço para fazer chegar até as pessoas que vêem TV aberta um pouco do que se passa no âmbito da cultura nacional. Acho que é o mínimo, não é luxo.

Pandora por Waterhouse



John William Waterhouse, pintor nascido em 1849, na Inglaterra, esforçou-se para ser escultor; no entanto algo fugiu ao controle e ele se transformou num pintor. Especializou-se em figuras femininas relacionadas à Mitologia. Muito cuidadoso com os detalhes, recebeu críticas negativas por criar cenas demasiado artificiais.

O quadro acima foi sugestão de uma amiga que entende mais de pintura do que eu. Ela própria desenha e pinta, sob o olhar atento de uma professora oriental. Se não me engano, o interesse por estudar Chinês veio precisamente daí, quer dizer, o interesse pelo idioma significava uma hipótese de encontro mais íntimo com uma parte preciosa da cultura oriental.

Lívia sugeriu outro quadro, em que Pandora, de cabelos negros e roupa mais escura, abria uma caixa grande, apoiada num pedestal improvisado. Estava ajoelhada, com ar que me agrada menos do que o desta Pandora.

Gosto desta Pandora comedida, cabelo atado à nuca, curiosa com um objeto que pode reter entre as duas mãos. 

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Esses ex-alunos da Fundação me matam!

Conversando com um ex-aluno alegre e ativo, coisa de minutos atrás mesmo, senti uma fagulha:
- Ah, vou nessa! Vou mostrar no blog textos diferentes na origem... feitos por causa do estado de graça da melhor noite da minha vida.

Paulo Leminski dizia que para um poema são precisos anos de vida! As imagens que ele foi buscar são todas muito palpáveis. Querem ver?

um bom poema leva anos
   cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
   seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
   sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
   três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
   uma eternidade, eu e você,
caminhando junto


Pra mim fica mais claro, depois dessa sugestão do poeta, que os meus pequenos poemas de comoção pelo nascimento do meu filho já aprendiam a andar antes de o Átila chegar a esse mundo.

Sendo muito franca, sou adepta dessa concepção de evolução. Eu própria tinha um sonho com o meu filho, desde a minha adolescência. No sonho ele era o Átila (o rei huno, não, mas o meeeeu Átila), embora o sobrenome/apelido fosse outro - que não é o meu nem o do pai dele.
Estávamos a brincar num parque de diversões dentro de uma praça circular, grande.
Eu já era uma mulher tensa (não!) e ele tanto me compreendia, que fazia as vezes de amigo, desde pequeno; dizia para eu me acalmar, porque ele gostava de todas as pessoas da família, inclusive daquelas de quem eu, como mãe perturbada, sentia ciúmes...

Fujo de comentar mais o sonho recorrente, porque já calhou a mim, mais de uma vez, essa onda de pensar que antevejo e vislumbro! Não refuto a mão que ele estendia para mim em sonho, claro que não, mas fazer figura de má diante dele, num futuro próximo, é pior do que pesadelo, seria realidade a mais para mim.
Eu sonhava com meu filho, entenda-se isso como for possível.

E na sequência do nascimento dele numa maternidade pública da cidade do Porto, cheguei a casa em Amarante e fiz uns poemas. Estava profundamente agradecida por ter estado com outra mãe, num quarto de hospital simples, sem a barreira de uma sala só para bebês. Em Portugal, filhos ficam ao lado da cama das mães, num bercinho em acrílico. O meu, como o de muitas outras, presumo eu, passou toda a noite deitado em cima de mim, barriga contra barriga. Foi assim que eu vi as horas caminharem.

É de um fruto dessas horas - e otras cositas más - que este post trata.

Já uma vez publiquei poemas numa revista chamada Crioula; depois mandei mais uns para o blog de uns amigos, o Jean Narciso Bispo Moura e o Luciano Melo. Lanço aqui e agora as aspirações a hai-kai que mais me tocam, nessa aventura de ser mãe:






Atravessamos a noite
pela janela.
Quarto de hospital.

 
Mãe e filho numa maratona:
reta final do milagre
de (re)nascer.

 
Naquele que foi nosso ninho,
só uma moldura continha um vidro.
A ternura transbordava.

Projeção do instinto maternal,
pele com pele,
placidez.

Projeto-resposta
à pergunta-essência:
“Estás em mim?”.
 
 

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

- Clarice!

"Francisco Quinteiro Pires

Literatura

09.11.2011 12:21

Para inglês entender

Edições de A Hora da Estrela, vertida por Moser para a New Directions, buscam recuperar o tom literário da escritora, perdido em traduções anteriores. 




Foto: Luiz Maximiano

A escritora Clarice Lispector (1920-1977) ganhou uma segunda chance no mundo que fala inglês. Cinco dos seus livros, Perto do Coração Selvagem, A Paixão Segundo G.H., Água Viva, A Hora da Estrela e Um Sopro de Vida, vão receber novas traduções. Coordenador do projeto, Benjamin Moser vê na empreitada a oportunidade de Clarice ser mais conhecida nos Estados Unidos e no Reino Unido. Segundo Moser, dada a má qualidade das versões em inglês, quem lê a autora brasileira corre o risco de não entendê-la. “O erro das antigas traduções foi querer tornar o seu estilo mais legível”, diz.
Autor de Clarice, uma Biografia (Cosac Naify), Moser considera praticamente impossível traduzir os livros da ficcionista. “O dela não é um português normal, ele é agressivamente estranho.” Moser assina a nova tradução de A Hora da Estrela (1977), a ser publicada em novembro pela New Directions (EUA) e pela Penguin Classics (Reino Unido). Alison Entrekin vai traduzir Perto do Coração Selvagem (1944); Idra Novey, A Paixão Segundo G.H. (1964); Stefan Tobler, Água Viva (1973); e -Johnny -Lorenz, Um Sopro de Vida (1978)."

Tudo o que você acabou de ler, e que está entre aspas, eu li na tela/ecrã do meu computador há minutos, acessando o site da revista Carta Capital.

E li com ressalvas.

Conheço bem os contos de Clarice Lispector. As histórias infantis, idem. Os romances, ia conhecendo conforme era preciso tratar deles com meus antigos alunos. Não os estudei à exaustão, confesso.

Estudo desde aproximadamente ano e meio, novamente, Clarice Lispector, inclusive o lado missivista de Clarice. Ela é autora de cartas muito afáveis, dirigidas às irmãs e aos amigos, por exemplo.

Em minha pesquisa, tento dar uma forma a esse cruzamento entre ficção e não-ficção, considerando todas as implicações que o gênero carta tem. Sem falar no fato de ela ter produzido boa parte do que eu estudo enquanto vivia no exterior a experiência de ser estrangeira - até para ela própria, em certa medida.

Para isso conto com uma fortuna crítica que já tem seu peso. Ressalto que existem no mercado livros excelentes de pesquisadores brasileiros, livros da Universidade de São Paulo, livros oriundos de anos de pesquisa em outras instituições do Brasil.

Há dois anos estive na Casa de Cultura Japonesa da USP, para acompanhar um lançamento importante.
Era Nádia Battella Gotlib a dar a conhecer uma nova edição da fotobiografia de Clarice Lispector.

Comprei, li, emprestei, recebi de volta e tornei a folhear.

E, já aqui em Portugal, dei-me conta do rebuliço em torno do lançamento da biografia escrita pelo pesquisador inglês referido no texto da Carta Capital. A coisa soou meio esquisita para mim.

Jogaram confete a mais, a meu ver...

Cheguei a escrever para uma revista portuguesa que divulgou o lançamento, questionando a ênfase com que apresentavam ao público o trabalho dele, num período tão próximo do relançamento da fotobiografia anterior. Eu, pelo menos, não havia notado semelhante alarido por causa do trabalho feito pela antiga professora da USP, Nádia Battella Gotlib.

Não li resposta da revista para o meu argumento.

E agora, numa revista brasileira, mais confete.

Que acham do texto? Que pensam do tom usado?

Vou investigar: Clarice ganha uma 2ª chance perante o público que lê em língua inglesa? Bom, prefiro saber quem traduzia a obra dela até então!

Isso de condenar traduções é delicado. Quem quer criticar tem que saber ao pormenor o texto original, depois tem que saber apontar os problemas pontuais da tradução, e tem que explicar o que louva numa tradução nova. Nessa seara não basta vir com uma noção vaga, uma impressão ou coisa que o valha.

Clarice Lispector já é, de algum modo, conhecida nos Estados Unidos... Tem críticos nesse país. É estudada nesse país. Moser desejará, portanto, que ela seja lida pelo grande público? Será? Só isto rendia uma reportagem inteira da Carta Capital. Assim traçavam para os brasileiros, para os lusófonos, para os amantes de literatura, para os conhecedores de Clarice (e muitos jovens no Brasil o são, por causa do Ensino Médio), enfim, um panorama de leitura de autores lusófonos nos Estados Unidos. E muitas questões adjacentes vinham em seguida. E o hábito de criticar tradutores - os brasileiros são mencionados sem o menor cuidado, em Portugal - era passado em revista. E tal e tal e tal.

Se o próprio Moser vai traduzir, começa a cheirar a reserva de mercado no âmbito das Letras... Achei que apenas os professores universitários mais acostumados faziam dessas!

Por fim, o que depreender daqui: "Moser considera praticamente impossível traduzir os livros da ficcionista. 'O dela não é um português normal, ele é agressivamente estranho.'"?

Clarice pode ser agressiva, estou com um conto em mãos particularmente engraçado nesse sentido. E olha que eu estive às voltas, na minha cabeça, com aquela ideia de ser tosca. A protagonista do conto se refugia um pouco nessa condição, quando o mundo exterior a sufoca de monotonia. Mas o português de Clarice será agressivo? O que isso quer dizer? Traduza, por favor, em termos de verbos, de substantivos, de adjetivos, de montagem do discurso direto, de metáforas, de pontuação, de silenciosas omissões de palavras, de idioleto...

Terminar um texto informativo com esses rasgos de mistério não me seduz, nem como leitora nem como pesquisadora. Aliás, nem o lugar comum ligeiramente alterado, do título "Para inglês entender", tem a minha simpatia. Sugere um questionamento que o texto frustra. Ajoelhou, tem que rezar, senhor jornalista!