Pondera, Pandora, como se isto fosse um diário

Pondera, Pandora, como se trabalhasse para rever-se, inteira, neste diário

Um ou dois aforismos
Não sei explicar o motivo, mas sempre ouvi com um misto de curiosidade e desconfiança as pessoas que gostam de dar opinão introduzida mais ou menos assim: "como diz o poeta" ou "e como disse o outro". Apesar disso, coleciono alguns aforismos, cujos autores eu prefiro indicar a deixar no ar.

Teixeira de Pascoaes, por exemplo, tinha uns fantásticos: "Amar é dar à luz o amor, personagem transcendente"; "Só os olhos das árvores vêem a esperança que passa"; "Existir não é pensar; é ser lembrado"; "A indiferença que cerca o homem demonstra a sua qualidade de estrangeiro"; "Vivemos como num estado de transmigração para a nossa fotografia".

Ele viveu em Amarante! Pena que não se respire o mesmo ar nos dias de hoje...

O aforismo dele de que eu mais gosto, no entanto, entre os que saíram publicados pela Assírio & Alvim, traz o seguinte:

"A seara não pertence a quem a semeia, pertence ao bicho que a rouba e come".

Sendo homem da terra, do chão, dos cheiros da natureza, muito embora culto, eu só posso concordar. Para um espírito muito suave - a não ser quando sente-se desafiado -, esse tipo de sabedoria condensada é sem dúvida ensinamento.


quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Um achado de fim de noite

Ironia é autocrítica superada, segundo um crítico literário chamado Enylton de Sá Rego.

Ontem, enquanto estudava para finalizar um artigo sobre Machado de Assis, li a afirmação e quis rir. Estarão caindo as fichas, devagar? Há alguns anos não me identificaria com esse tipo de processo, com essa travessia do excesso de exigência para o reconhecimento pacífico que se adivinha no riso.

Portanto, li a explicação acerca do significado da ironia em Machado de Assis, querendo rir e ri. 

E neste momento me vem à cabeça mais uma vez Paulo Leminski, o poeta curitibano, que é para dar outra cor ao texto, com mais uma dose de ironia, além da machadiana, além da minha.
Sou quase forçada a transcrever o pensamento!
Digo eu que há uma graça perversa e também curiosa entre aquilo que se deseja e aquilo que se obtém. 
Dizia, por exemplo, Leminski: 

"Que tudo se foda
disse ela
e se fudeu toda"



Pois é... Isso de desejar tem o que se lhe diga. Uma pessoa pede e pode ser atendida, pode desencadear, pode ter que levar com uma reação.

E eu fiquei satisfeita ontem à noite, considerei-me pronta para dormir, depois de um dia mais cansativo do que os outros, justamente porque percebi que estou caminhando. Eu tenho pedido para ter pernas pra andar.

Para quem não riu à toa, durante uns tempos largos, eu finalmente estou caminhando. 
Todo mundo erra!
Acusaram Machado de escrever com ares de superior, depois de subir de classe social no Rio de Janeiro de outra época.
Leminski acusava os próprios erros, os erros do homem que foi. Não havia nos poemas um acontecimento deplorado, mas muitas vezes uma necessidade de rir quando um certo eu lírico pulava de cama em cama, bebia muito, cometia o mesmo erro etc.
Por que eu, então, estaria isenta?!

Passei muito tempo a crer que se fosse a menina que pedia aos colegas de classe, lá na quente Piracicaba, que se calassem para ouvir a professora, estaria livre do julgamento. Não estava, no fundo nunca estive. Até os colegas, pequeninos como eu - deixei a cidade aos 11 -, descobriam em mim uma Betina mais malandra, mais bacana, mais rebelde do que sisuda.

Enfim, se não me libertei por inteiro, depois de anos habituada à autocensura, vou soltando as asas... Devagar, devagar, lembro das piadas, repito-as, procuro encaixá-las no dia, não vá ele engolir-me antes que esse desejo de sorrir passe.



domingo, 20 de novembro de 2011

Cora Coralina




Antiguidades

Quando eu era menina
bem pequena,
em nossa casa,
certos dias da semana
se fazia um bolo,
assado na panela
com um testo de borralho em cima.

Era um bolo econômico,
como tudo, antigamente.
Pesado, grosso, pastoso.
(Por sinal que muito ruim.)

Eu era menina em crescimento.
Gulosa,
abria os olhos para aquele bolo
que me parecia tão bom
e tão gostoso.

A gente mandona lá de casa
cortava aquele bolo
com importância.
Com atenção. Seriamente.
Eu presente.
Com vontade de comer o bolo todo.

Era só olhos e boca e desejo
daquele bolo inteiro.
Minha irmã mais velha
governava. Regrava.
Me dava uma fatia,
tão fina, tão delgada...
E fatias iguais às outras manas.
E que ninguém pedisse mais!
E o bolo inteiro,
quase intangível,
se guardava bem guardado,
com cuidado,
num armário, alto, fechado,
impossível.

Era aquilo, uma coisa de respeito.
Não pra ser comido
assim, sem mais nem menos.
Destinava-se às visitas da noite,
certas ou imprevistas.
Detestadas da meninada.

Criança, no meu tempo de criança,
não valia mesmo nada.
A gente grande da casa
usava e abusava
de pretensos direitos
de educação.

Por dá-cá-aquela-palha,
ralhos e beliscão.
Palmatória e chineladas
não faltavam.
Quando não,
sentada no canto de castigo
fazendo trancinhas,
amarrando abrolhos.
"Tomando propósito".
Expressão muito corrente e pedagógica.

Aquela gente antiga,
passadiça, era assim:
severa, ralhadeira.

Não poupava as crianças.
Mas, as visitas...
- Valha-me Deus !...
As visitas...
Como eram queridas,
recebidas, estimadas,
conceituadas, agradadas !

Era gente superenjoada.
Solene, empertigada.
De velhas conversar
que davam sono.
Antiguidades...

Até os nomes, que não se percam:
D. Aninha com Seu Quinquim.
D. Milécia, sempre às voltas
com receitas de bolo, assuntos
de licores e pudins.
D. Benedita com sua filha Lili.
D. Benedita - alta, magrinha.
Lili - baixota, gordinha.
Puxava de uma perna e fazia crochê.
E, diziam dela línguas viperinas:
"- Lili é a bengala de D. Benedita".
Mestre Quina, D. Luisalves,
Saninha de Bili, Sá Mônica.
Gente do Cônego Padre Pio.

D. Joaquina Amâncio...
Dessa então me lembro bem.
Era amiga do peito de minha bisavó.
Aparecia em nossa casa
quando o relógio dos frades
tinha já marcado 9 horas
e a corneta do quartel, tocado silêncio.
E só se ia quando o galo cantava.

O pessoal da casa,
como era de bom-tom,
se revezava fazendo sala.
Rendidos de sono, davam o fora.
No fim, só ficava mesmo, firme,
minha bisavó.

D. Joaquina era uma velha
grossa, rombuda, aparatosa.
Esquisita.
Demorona.
Cega de um olho.
Gostava de flores e de vestido novo.
Tinha seu dinheiro de contado.
Grossas contas de ouro
no pescoço.

Anéis pelos dedos.
Bichas nas orelhas.
Pitava na palha.
Cheirava rapé.
E era de Paracatu.
O sobrinho que a acompanhava,
enquanto a tia conversava
contando "causos" infindáveis,
dormia estirado
no banco da varanda.
Eu fazia força de ficar acordada
esperando a descida certa
do bolo
encerrado no armário alto.
E quando este aparecia,
vencida pelo sono já dormia.
E sonhava com o imenso armário
cheio de grandes bolos
ao meu alcance.

De manhã cedo
quando acordava,
estremunhada,
com a boca amarga,
- ai de mim -
via com tristeza,
sobre a mesa:
xícaras sujas de café,
pontas queimadas de cigarro.
O prato vazio, onde esteve o bolo,
e um cheiro enjoado de rapé.



Eu, que não vivi esse passado, sinto como se já tivesse pertencido a ele e a ele de novo voltasse, chegando a Portugal.
A casa é sagrada. 
Hábitos são coisas profundas.
Será preciso forjar um lugar no mundo, como quem já nasceu pronta.

sábado, 19 de novembro de 2011

"Nu feminino com tina de banho", Quirino Campofiorito



Pintura de 1932.
Os corpos mudaram, desde então.
Os quartos, também. Algumas pessoas, em Portugal, dizem "quarto de banho". Em geral, diz-se "casa de banho".
A tina? Não sei se alguém ainda utiliza. Por causa dos modismos orientais, no Brasil, conhecemos o ofurô.

Será que as mulheres gostavam mais de posar, outrora?

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Como não fiquei fã de uma jornalista e sua ideia de amor


"Sermões impossíveis
Fernanda Câncio JORNALISTA
Há uma frase que mais tarde ou mais cedo surge naquelas conversas de amigos sobre uma relação qualquer que ou deu para o torto ou nunca deu para mais nada: «Ela/Ele gosta de ti à sua maneira.» Claro que a forma mais saudável de encarar este tipo de asserção é descontá-la como consolo mais ou menos simpático: quem o usa fá-lo para certificar ao outro que afinal até é «gostado», só que não do modo como desejaria ou, as mais das vezes, como toda a gente com bom senso e sensibilidade acha que se gosta «a sério». Sucede que, além de não servir para nada - para que raio quer alguém magoado ouvir que quem o magoa o faz por (deve ser essa a ideia) ter um defeito de fabrico na área das emoções e afectos? - há neste dizer um lado desculpabilizador e até de subliminar o encorajamento da vitimização que é sumamente insuportável.
Ao pressupor que existem maneiras de gostar de alguém que permitem - é geralmente disso que se trata - a indiferença, a distância emocional a até os maus tratos, afectivos ou outros, está-se não só a colocar quem protagoniza essas acções (ou inacções) num papel de «coitado» que não sabe/não pode fazer melhor como a projectar em quem as sofre uma obrigação de «compreender» e talvez mesmo de «suportar» - de perseverar, portanto. Além disso, desloca-se o fulcro da relação da prática para a teoria: em vez de valorizar o que realmente importa, o bem-estar que se retira ou não dela, o esforço que cada uma das pessoas faz para fazer o outro feliz, a tónica passa a ser o que «se sente» - lá no fundo, no fundinho. Ora para alguém que é infeliz com outra pessoa não é nem deve jamais ser propriamente relevante que essa pessoa não consiga fazer melhor que aquilo e, quiçá, até se sinta mal com isso. O ponto é que ninguém deve permanecer ou investir em relações com essas características, e é isso que os nossos amigos nos devem dizer. E se não conseguem fazê-lo, ao menos que se abstenham de repetir «mas ele/ela gosta de ti», como se isso lograsse algum milagre bíblico, do género de transformar pedras em pão.
As pessoas ficam juntas, ou seja, mantém aquilo que passa por ser «uma relação» por inúmeros motivos. Partir do princípio de que se alguém permanece com outra pessoa é porque gosta dela - «por que outro motivo seria?», pergunta-se muitas vezes - é uma tontice. Há relações que mais não são do que formas perversas de dominação e tortura (veja-se as que são conformadas pela descrição de «violência doméstica»), necessidade de uma aparência de «normalidade» ou, o que é mais comum talvez, hábito, conforto, reforço narcísico - o ter alguém, ali, à mão, que gosta de nós e nos trata bem, alguém que por isso mesmo se pode tratar mal. A medida do sentido de uma relação nunca deve ser, pois, o facto de existir (pelo menos como algo que está), sobretudo se só existe à custa do investimento emocional de uma das partes.~
A ver se a malta se entende: não é preciso tirar um curso, decorar aquelas frases feitas sobre as relações ou uma canção pop alusiva ao tema para se saber que se no encontro entre duas pessoas uma delas está em situação de ouvir que a outra «gosta dela à sua maneira», a relação está boa para deitar fora, e quanto mais depressa melhor. Ficar porque já se investiu/sofreu muito ou porque «se gosta» (geralmente as duas coisas misturadas e na verdade a querer dizer o mesmo, já que só se investe e sofre porque se gosta) significa apenas que se vai sofrer mais. E se na escola não se pode ensinar como fazer os outros felizes, se o exemplo dos pais nem sempre abona, ao menos cada um de nós, nas nossas relações com os outros, saiba fazer pedagogia do afecto como algo que se sente e se faz sentir, não como um valor que se amealha numa qualquer conta enquanto se vive a pão e água. Não há austeridade no amor. Ou há amor ou não há, e o amor dá-se, prodigaliza-se, não se guarda. Tudo o que for menos do que isso não presta. Xô."

Vou procurar seguir a mesma ordem que a jornalista da revista Notícias Magazine utilizou para o texto deste último final de semana, porque na minha cabeça o assunto de que ela trata é manhoso, no sentido português da palavra, isto é, é um assunto ardiloso. Relações amorosas são um rio ora cheio ora quase vazio, com mais peixes numa época do que em outra, com ou sem vegetação - exuberante vegetação ou relva rala -, protegido da poluição ou tomado por ela. Com duas margens e até com uma terceira.

Para começar, preciso dizer que não me sinto confortável ao ler uma frase do tipo "como toda a gente com bom senso e sensibilidade acha que se gosta 'a sério'". Posso refutá-la de várias maneiras: toda a gente com bom senso e sensibilidade acha igual? Gostar 'a sério' é, afinal, uma coisa apenas? Gostar a sério nos impede de viver outras formas de gostar? Quem conversa conosco acerca desses assuntos tem a coragem de nos encarar e perguntar se nós próprios sabemos o que é gostar 'a sério'? E nós, sabemos ou queremos saber, realmente, em todas as alturas da nossa vida, o que é gostar 'a sério'? Temos a obrigação de saber? Não há escalada nesses nossos processos internos? Não há escalada nos processos de escuta e de narração, quando estamos a partilhar com os amigos? Enfim, argumentos vão aparecendo, contra uma afirmação frágil.

Penso que a jornalista partiu de uma pressuposição perigosa. Porque se alguém julga que sabe definitivamente o que é gostar a sério, deixa simplesmente de ter motivos para estar em contacto com os diferentes, querendo receber mais do que dar. Em outras palavras, quero reforçar que, caso eu saiba melhor do que os meus amigos o que é gostar, deixo de me preocupar em excesso com o quanto ofereço comparado ao quanto ganho, e passo a oferecer sem medir com uma régua. Não conheço muita gente que aja assim, nem muita gente que entre numa conversa a dizer que sabe o que é gostar e que não se importa de dar, nem muita gente que na concretude da convivência faça por ser assim, sábia e praticante. É mais comum dizer e não fazer, não ter força e paciência pra fazer, julgar que faz como ninguém!

Entro, então, num outro ponto levantado pela jornalista Fernanda Câncio. A história do consolo e da vitimização em que ela vai com tudo.

Nas vezes em que um amigo fala, que eco a conversa gera? No momento em que eu, como interlocutora, me imagino a ouvir uma segunda voz que aponta para o puro consolo, não estou a ouvir bem, não estou a ouvir a voz do outro (mas ouço, sim, a minha voz rigorosa e provocadora), não estou com um amigo que me ouviu bem. Uma das hipóteses é válida. Quem é que afirma, sem titubear, que nunca ouviu sair de dentro da sua armadura uma voz que instiga a brigar e a projetar no outro o nosso algoz? Acontece nas melhores famílias. Nosso diálogo interno às vezes maça, às vezes vai além, desespera. A batalha, por isso, é contra agirmos motivadas por essa voz, que é nossa. E se encaramos o desafio de não tirarmos de cena o nosso lado adulto, o lado que nos pode ajudar a pôr de parte essa nossa voz, o que nos resta da personagem a que se pode chamar vítima? Quem dá luta não é vítima! Portanto, a longa lista que vai desde estar numa relação, partilhar com quem tem envergadura moral o nosso crescimento cotidiano como membro de um casal, ouvir o feedback e seguir em frente para crescer mais, evitando a armadilha das nossas ideias preconcebidas sobre o amor, vociferadas dentro de nós e entendidas como fala alheia, não é lista de uma vítima. Uma vítima tem um discurso viciado, previsível, choroso, que exclui suas próprias participações e aponta sempre para as maldades praticadas pelo outro, seja ele o(a) parceiro(a) ou o(a) amigo(a).

Fiz-me entender?

Com toda a sinceridade, não me lembro de ter ouvido uma pessoa do meu círculo a deixar nas entrelinhas a ideia de que está tudo bem quando falta amor, quando falta carinho, quando sobram antipatias, grosserias, boicotes, sabotagens. E há explicação simples para essa ausência nas minhas memórias: o que as pessoas querem é acolhimento, às vezes até o que dura pouco. Não resisto e, nessa vaga boa, trago um verso curto da canção deliciosa do Gonzaguinha, artista já falecido: "Tudo, amiga, é apenas carinho e atenção". É isso. Cabe no verso de uma canção. Estava no olhar do compositor, profundo para quem o quer assim. Muito curiosa eu ouvi, faz uns meses, o depoimento de uma atriz portuguesa que eu tomava por superficial. Alexandra Lencastre, uma mulher bonita e presente nas revistas de fofoca, comparou as paixões a um capricho, mais ou menos nos seguintes termos: o que diferencia um capricho de uma paixão? O capricho dura mais tempo. Voltando ao compositor, que mora na minha cabeça musical, há sentimentos sólidos como o tronco de uma árvore que vão definhando por causa da falta de carinho e só ele, sem a solidez que não se explica, resulta mas pode não vingar. Carinhos trocados, ternura,  tesão serão medida para o gostar 'a sério'? Eu não sei o que é gostar 'a sério', mas valorizo a dúvida, não aceito que digam por mim se está bem para a humanidade ou se é humilhante. Minha voz já atrapalha o suficiente.

Retomando sem recorrer aos artistas, lembro aqui que existem pessoas que, por não se quererem vitimizar, assumem aquilo que vivem numa relação como fruto do que constróem no dia a dia e, assim sendo, refletem, procuram estratégias ou permitem ao tempo que opere as suas mudanças. Umas derivam, erram, tropeçam, porque querem à força o que não lhes é dado, como se o outro tivesse a obrigação de fazer feliz quem está com ele. Discordo. Ninguém tem esse peso, pois o importante é compartilhar, aprender, para si e por si, para os outros e com os outros. Fazer feliz? As fadas fazem, na literatura... Ou faço eu, a mim e à família, a mim e aos vizinhos, a mim e aos desconhecidos. Nem ao cinema eu vou para que me façam feliz. E olha que sou eu a pagar o bilhete. Vou para rir um pouco ou para pensar ou para estar no escurinho com trilha sonora, sei lá. Fazer feliz é mais subjetivo. A minha antena capta felicidade e retransmite numa lógica que escapa até a mim.

Conheço uma senhora doce, alegre, cujo marido tentava muitas formas de humilhação dentro de casa. Ela chegava ao local de trabalho pesarosa, mas não se apoiava em lamentações. Buscava em outras fontes o que lhe serviria de bálsamo. Curava-se, voltava para casa refeita tanto quanto possível, com condições de nutrir a relação, lentamente, de uma qualidade que ao marido acabou por fazer a diferença. Ele compreendeu que era menos companheiro do que podia ser; um dia, deu uma resposta boa à resistência dela. Eu não a chamo vítima. Porque ela não se fez vítima nem aos meus olhos nem para ela mesma. Pode ser que dentro da cabeça dela também ecoasse aquela voz insistente, mas parece que ela driblava essa voz por ser carinhosa. Isso vale mais do que usar uma relação, boa ou má, para eximir-se da tarefa de viver a vida como ela se apresenta.

O que poderia ser diferente do que a jornalista apregoa?

Imagino que tenho mais um ano letivo com uma turma de 50 alunos, como costumava ser. Não sendo muito vulgares as turmas homogêneas, eu estava em pé diante de 50 pessoas de naturezas distintas. Umas mais aplicadas nos estudos, outras mais desatentas. Umas mais confortáveis nas cadeiras, outras mais irriquietas. Umas mais caladas, outras mais questionadoras. Umas mais atrasadas quanto aos deveres marcados, outras mais disciplinadas nas entregas dos mesmos deveres. Umas cujas famílias eu já tinha conhecido em outros anos, outras novas, incógnitas. Que fazer? Exigir rigorosamente o mesmo de cada um? Nunca mudar as palavras do meu discurso, para me fazer clara para uns e outros? Aceitar ou não sugestões? Mostrar ou não como eu quero que sejam as rotinas? O que eu defendo: a única coisa que contaria, nesse caso, é dar aulas, encarando o que viesse pela frente. Chegaria o momento de discutir o que estávamos fazendo na escola, o momento de marcar exames, de devolvê-los corrigidos, de justificá-los, de combinar passeios, de propor leituras, de voltar a falar das nossas responsabilidades, de chamar os pais, de rir, de querer fugir etc. Viver é isso. Vive-se em casa, ao lado do companheiro, vive-se na escola, vive-se no trabalho, vive-se dentro do carro, no trânsito, vive-se nas discotecas, nos cafés e padarias...

Na minha opinião, há respostas para quem as procura. Há momentos para procurá-las. E não há lição em que professor e aluno não aprendam um com o outro. Vive um amor quem acha que ama mais, vive quem acha que á amado demais. Só não há vida com amor para quem se retira, para quem acha que ouvir a respiração do outro e o que ela tem a dizer é mais relevante do que respirar e, então, descobrir-se no amor.

Ficar ofendida porque um amigo aconselhou mais aceitação da minha parte? Ficar com a sensação de que esse amigo me vê como vítima? Ficar com a pulga atrás da orelha porque não gostam de mim 'a sério'? Se eu só me perspectivo desse modo, eu me vejo muito mal! Isso sim é vitimização, embrulhada num papel mais bonitinho.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O que é amor, que se manifesta devagar, pelos fios de telefone e pelas bibliotecas


E pensar que houve um Padre, no séc. XVIII, em Espanha, que se dedicou a investigar o amor e a escrever sobre ele com tal propriedade que permitia discordar de filósofos antigos e começar sentenças por um singelo "Mi sentir es que estas voces nada significan". 

Esse homem foi Benito Jerónimo Feijoo. 

Estudei uma parte pequena do legado dele, quando estava atenta à história de Sor Juana Inés de la Cruz, religiosa do México. 

Voltei a ouvir falar dele em Amarante, há cerca de 15 dias, quando a Profª que orientou o meu trabalho no Mestrado veio à biblioteca da cidade para mostrar uma visão peculiar do poeta Teixeira de Pascoaes.

No salão à esquerda de quem entra naquele espaço público, havia mais ou menos umas 30 pessoas, eu creio, e poucas me conheciam. 

Uma delas, certa vez, chamou-me ingênua porque eu esperava ocupar um cargo público aqui, sem conhecer figura ilustre que me recomendasse.

Por isso e pela troca intelectual e afetiva que, graças a Deus, existe entre a Profª Maria Luísa Malato e eu, foi muito saboroso ouvir que parte do raciocínio que ela iria seguir para discursar sobre Teixeira de Pascoaes, na cidade de Teixeira de Pascoaes, tinha que ver com uma pergunta minha, feita há mais de um ano.

Faláramos a respeito do significado da palavra "energia" para o Pe. Benito Feijoo, já que ele a utilizara para criticar Sor Juana Inés de la Cruz.

Enfim, às vezes as coisas tardam, mas não falham!




44. Tres especies de amor distingo: Apetito puro, amor intelectual puro, y amor patético. El apetito puro, que con alguna impropiedad se llama amor, se termina a aquellos objetos, que deleitan los sentidos externos, como al manjar regalado, al olor suave, a la música dulce, al jardín ameno. Este amor se excita precisamente por la experiencia, que tiene el alma de la sensación grata, que le causan estos objetos. La alma naturalmente apetece, y se inclina al gozo de lo que la deleita: y así no es menester más requisito para excitar en ella ese amor, que la experimental representación de la sensación grata, que causa tal, o tal objeto.


45. El amor intelectual puro viene a ser el que los Teólogos Morales llaman apreciativo, a distinción del tierno. Demosle aquél nombre, porque es mero ejercicio del alma racional, independiente, y separado de toda conmoción en el cuerpo, o parte sensitiva. Este se excita por la mera representación de la bondad del objeto. El alma ama todo lo que se le representa bueno, sin ser necesaria otra cosa más que el conocimiento de la bondad. Así ama, aun separada del cuerpo: y el amor intelectual puro, de que hablamos, realmente en cuanto al ejercicio, es semejante al que tiene el alma separada.


46. El amor patético es el propio de nuestro asunto. Este es aquel afecto fervoroso, que hace sentir sus llamaradas en el corazón, que le inquieta, le agita, le comprime, le dilata, le enfurece, le humilla, le congoja, le alegra, le desmaya, le alienta, según los varios estados en que halla el amante, respecto del amado: y según los varios objetos, que mira, ya es divino, ya humano, ya celeste, ya terreno, [370] ya santo, ya perverso, ya torpe, ya puro, ya ángel, ya demonio.