Pondera, Pandora, como se isto fosse um diário

Pondera, Pandora, como se trabalhasse para rever-se, inteira, neste diário

Um ou dois aforismos
Não sei explicar o motivo, mas sempre ouvi com um misto de curiosidade e desconfiança as pessoas que gostam de dar opinão introduzida mais ou menos assim: "como diz o poeta" ou "e como disse o outro". Apesar disso, coleciono alguns aforismos, cujos autores eu prefiro indicar a deixar no ar.

Teixeira de Pascoaes, por exemplo, tinha uns fantásticos: "Amar é dar à luz o amor, personagem transcendente"; "Só os olhos das árvores vêem a esperança que passa"; "Existir não é pensar; é ser lembrado"; "A indiferença que cerca o homem demonstra a sua qualidade de estrangeiro"; "Vivemos como num estado de transmigração para a nossa fotografia".

Ele viveu em Amarante! Pena que não se respire o mesmo ar nos dias de hoje...

O aforismo dele de que eu mais gosto, no entanto, entre os que saíram publicados pela Assírio & Alvim, traz o seguinte:

"A seara não pertence a quem a semeia, pertence ao bicho que a rouba e come".

Sendo homem da terra, do chão, dos cheiros da natureza, muito embora culto, eu só posso concordar. Para um espírito muito suave - a não ser quando sente-se desafiado -, esse tipo de sabedoria condensada é sem dúvida ensinamento.


quinta-feira, 25 de abril de 2013

E será que existe acordo?


Em idade escolar, e principalmente numa cultura de respeito às regras, “dar erros”, conforme diz-se em Portugal, causa algum constrangimento.
Mas, se é do Acordo Ortográfico que se trata, esse respeito às regras pode significar, ao mesmo tempo, conforto e desconforto.
Por um lado, alunos em tenra idade aprendem que é preciso aceitar regras. Os que hoje cursam a terceira série do ensino obrigatório, por exemplo, fizeram o aprendizado de português, até este momento, atendendo às regras do Acordo. Pode ser que tenham ouvido falar em polêmica, mas desconhecem as regras anteriores ao Acordo e escrevem como têm aprendido.
Por outro lado, alunos mais velhos e seus professores fazem coro para dizer que as regras do Acordo estão a ser impostas. Como alegam professores na pequena cidade de Amarante, em Gondomar, mais próxima do Porto, ou ainda em Guimarães, a simples imposição deveria ter sido evitada, quer ela seja fruto da presunção da elite, quer venha da ação mal planejada dos políticos.
Alunos do ensino superior português, no contexto das universidades particulares, mostram uma postura um pouco diferente. A orientação que lhes é dada aponta para o respeito ao Acordo porém, na prática, seus professores parecem preferir que eles continuem a escrever como faziam antes da mudança, na medida em que toleram trabalhos académicos escritos com as antigas grafias.
De modo geral, no entanto, professores e alunos portugueses têm passado a escrever em consonância com as prescrições do mais recente acordo da língua portuguesa, mesmo admitindo que o processo de adaptação faria mais sentido, caso os fundamentos das mudanças tivessem sido expostos com clareza à população.
No que toca à adaptação dos próprios professores, não é difícil perceber a incoerência com que são confrontados pois, em muitos agrupamentos escolares, as sessões de esclarecimento foram dirigidas exclusivamente aos professores de língua materna, deixando de fora os responsáveis pelo ensino de todas as outras disciplinas escolares.
Dos manuais escolares, os quais devem acompanhar os alunos por pelo menos quatro anos consecutivos, não se notam tantas queixas, porque já estão preparados conforme o Acordo.
Nos livros editados e vendidos no país, o usual é que a ficha técnica contenha a informação acerca do posicionamento quanto ao Acordo Ortográfico, e este tem sido respeitado, em geral; a recusa em publicar conforme as novas regras, que é exceção, acontece ou por imperativo do autor ou, mais raramente, do tradutor.
Durante o ano de 2012, nas grandes livrarias, a venda de pequenas apostilas com a indicação das principais mudanças que o Acordo trouxe à norma linguística tem sido reconhecida, pelos vendedores, como mais expressiva do que a venda de materiais mais densos sobre o assunto. Lúcia Vaz Pedro, autora de uma dessas apostilas, também assina uma coluna semanal no Jornal de Notícias, intitulada “Português atual” – já com a nova grafia -, o que evidencia que Portugal, mesmo sem investir em grandes campanhas de divulgação do Acordo, tem resguardado algum canal de exposição e debate do tema. A autora recebe numerosas mensagens de leitores a reclamar do Acordo, ainda que os argumentos apresentados resvalem para o que em terminologia técnica se pode chamar hipercorreção, isto é, a busca de um uso mais correto do que a norma.
Para além do JN, outros jornais de circulação nacional também aderiram. Alguns o fizeram em 2009, outros em 201o. Assim procederam igualmente as emissoras de televisão (a RTP, Rádio e Televisão de Portugal, aderiu em 2011) e a maioria dos partidos políticos, ao elaborarem material de interesse público.
Respeito, conforto, desconforto, um pouco de relaxamento e manifestações mais político-ideológicas do que razoáveis, enfim, compõem um panorama que fica mais claro quando lembramos como estão aturdidos os cidadãos portugueses. O crescente desemprego e a falta de identificação de muitos portugueses com a autoridade indicam que enquanto a crise financeira na Europa falar mais alto, será apenas lamentável que o debate ligado à língua e ao Acordo Ortográfico não chegue a preocupar. Existem preocupações que dispensam alerta, eles sentem em casa, na rua, na própria pele e o Acordo, por ora, mantém-se sem a aprovação consciente dos falantes.


Betina Ruiz

domingo, 10 de março de 2013

Depois de um perspicaz missionário


Como perceber a ligação das pessoas com o meio em que vivem?
Arrisco dizer que o magnetismo de um meio atravessa os pensamentos e os sentimentos das pessoas, embora seja difícil, para muitos de nós, dar expressão falada ou escrita a esse apelo e até mesmo captá-lo no ar.
Amparada por essa ideia de que está em cada um, sempre, mais camada menos camada, uma ligação com o meio em que vive e no qual circula, insisto na reflexão, à qual acrescento: será que as pessoas de hoje pensam nas pessoas que, séculos atrás, estiveram no espaço público que elas ocupam?
Será que as pessoas mais antigas, que habitaram ou percorreram um espaço qualquer, assumem um significado aos olhos dos habitantes e dos viajantes presentes neste espaço?
Trocando em miúdos ainda mais, pergunto se as pessoas hoje se inquietam com o facto de que, afinal, outras pessoas ocuparam e transformaram o espaço que foi embrião do espaço atual.
De vez em quando, a passagem de uma pessoa por um determinado espaço entra na ordem do dia, e então temos uma resposta para as perguntas transcritas.
A literatura tem incorporado essa ligação do homem com o meio; alguns escritores deixaram textos inspiradores, fruto de um grande poder de observação e de muita intimidade com as palavras. Assim procedeu João Guimarães Rosa, por exemplo, ao rematar:

“A vida inventa! A gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação – porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada”.[1]

Bastará atender a um chamado, então, para dar chance à vida, vida que é de todos, apesar de assumir contornos personalizados! Assim já nos ensinou esse bom viajante, homem de apontamentos sem conta, tomados no decorrer das viagens pelo Brasil. Estivera fora do país de 1938 a 1942 e depois de 1942 a 1945, com mais alguns períodos entrecortados, até 1951, sempre na condição de diplomata, na Alemanha ou na Colômbia; uma vez no Brasil (mais especificamente nos estados de Minas Gerais, Mato Grosso e Bahia), retomava, viajando e escrevendo pequenas notas, o jeito de estar com as pessoas simples. As notas manuscritas, postas em diários, estão hoje bem guardadas[2].
Os meios de comunicação de massa igualmente podem funcionar como motores da emergência dessa relação entre o homem e o meio. E muito embora a abordagem que os jornalistas costumam escolher resvale para o superficial e também para o óbvio, eles vão em busca de ícones para explicar como um meio atingiu determinado estado.
Se uma grande cidade como São Paulo, Brasília ou Tóquio é o assunto em pauta, por exemplo, é possível que os jornalistas se lembrem de mencionar nomes de arquitetos: Lina Bo Bardi, autora do edifício do Museu de Arte de São Paulo; Oscar Niemeyer, que projectou a Catedral de Brasília; Ruy Ohtake, que fez o prédio da Embaixada do Brasil em Tóquio, e outros.
O que essas opções acrescentam, se é inequívoca a ligação entre os arquitetos, os urbanistas, os paisagistas e as diversas formas de vida com que as cidades nos enchem os olhos? Fica resguardado o conhecimento do trabalho desses profissionais, sem dúvida, o que não é pouco dada a nossa ignorância, o nosso analfabetismo relativamente a tantos assuntos, entre eles a arquitetura, o urbanismo, o paisagismo.
Um caso que ilustra bem a aproximação entre a percepção do meio e a modelagem do meio vê-se no seguinte texto jornalístico: “Essas [exemplos de uma arquitetura brasileira que, desde os anos 1940, passou a ser valorizada no mundo todo] construções que mudaram o espaço brasileiro, quando passaram a se tornar locais de convivência, também transformaram a maneira com que cada pessoa utilizava sua cidade, seu lazer, seu viver”[3].
Há situações pontuais, como mostra o texto acima; problema é os jornalistas não fazerem uma nova leitura da obra deixada pelos ícones. Aquele diálogo que um ícone estabeleceu entre o seu mundo interior e o mundo exterior, diálogo capaz de documentar o lugar, a época, a consciência singular etc, visto assim, sem novidades, é desperdiçado.
 Enfim, sendo uma forma de assimilar o mundo, a curiosidade sobre a ocupação do espaço público me parece interessante, a despeito do parco contributo dos meios de comunicação de massa e da duvidosa insistência na popularidade, que por vezes é a marca, também, de algumas criações artísticas[4].
Uma caminhada pelo largo do Mosteiro de São Gonçalo, em Amarante, pode ilustrar de outro modo o que quero dizer e defender. Literatura e imprensa ficam de lado, por ora.
Desde menina penso que caminhar, aguçando nossos sentidos, aguça também nossa curiosidade e nossa determinação para sonhar. Foi caminhando por Amarante, que me perguntei de que maneira pessoas de outras épocas já moldaram o espaço público amarantino, em tempos remotos.
Mas atenção, pois não se trata de um exercício retórico, de um pretexto para louvar a cidade. Louvar não tem mal em si, eu tenho a certeza, a não ser pelo efeito que produz, quando antecede outras abordagens “menos famosas”. Louvar Amarante numa primeira aproximação esvaziaria um pouco as reflexões sobre Amarante. Poria um fim antes do fim, se me permitem o jogo de palavras.
Estrangeira residente em Portugal há quase sete anos, custei a pôr os meus sentidos a serviço da observação das pessoas que me precederam em Amarante.
As pedras do Mosteiro de São Gonçalo, presença maciça, parda e cinzenta, mas principalmente os contornos do edifício do Mosteiro, projectados no chão do largo por linhas finas, pouco falavam comigo até há mais ou menos três anos.
A visão nunca foi o meu ponto forte, feliz ou infelizmente. Mesmo assim, lembro que, caminhando muito nos últimos anos pelas ruas centrais da cidade, pensei mais de uma vez na influência de mulheres e de homens de outras épocas. Eles sentiram Amarante e exerceram aqui uma pressão, penso eu.
De forma muito abstracta e fugidia, nas minhas caminhadas em direção àquele que era então meu local de trabalho, comecei a associar a passagem dessas pessoas ao que a cidade de Amarante é na atualidade.
Brincar com a hipótese de que cada lugar tem sua alma, permeável à influência dos habitantes e dos viajantes soou, mais recentemente ainda, como boa ideia para um texto partilhado com amarantinos, portugueses de outras terras e outros brasileiros perdidos por cá. Sempre julguei que cada lugar tem a sua atmosfera, como todas as pessoas devem entender, mas desconfiei de que apenas a referência a uma atmosfera não chegaria para dar a minha versão do que um lugar é.
Pois para mim e para outros, como Elias Canetti, prémio Nobel de Literatura de 1981 e autor da frase “uma cidade pode amar uma pessoa”, um lugar é um resultado, dá uma resposta – ou poderia dar – a cada existência e a cada pedido de quem caminha por ele.
A palavra “responder”, a propósito, está ligada na sua raiz à palavra “responsabilidade”; a cidade nos dá uma resposta, atende pelo nosso bem-estar, na mesma medida em que somos responsáveis por ela, em atos e em projetos nascidos do pensamento, das sensações e do sentimento. Creio que a nossa responsabilidade maior se expresse mesmo numa espécie de meditação, de reflexão sobre o espaço público, na forma que somos capazes de dar aos nossos desejos.
Voltando ao caminho que este texto já percorreu, das idas ao centro da cidade de Amarante à contribuição dos escritores, acrescento que houve um dia em que declarei para mim mesma ter chegado o momento em que era preciso um foco concreto, para além da minha apreensão da alma amarantina.
A palavra das pessoas comuns, num passado não muito distante, não era inventariada, o que constituía outro desafio na formulação do meu palpite sobre a influência humana na ininterrupta constituição do espaço público.
Eis que, de repente, cruzei virtualmente com uma pessoa ilustre, apresentada aos curiosos nas suas próprias palavras e nas de uma investigadora portuguesa de renome, a Profª. Doutora Isabel Morujão.
A pessoa que vou relembrar por meio deste texto esteve na cidade de Amarante há muitos e muitos anos, espalhando por aqui os benefícios da sua aguda capacidade de observação.
Tinha, sem querer, encontrado o mote para expressar a minha curiosidade sobre os processos de transformação da cidade.
A sugestão deste texto, portanto, prendia-se finalmente a uma tentativa de sentir e pensar Amarante a partir do conhecimento de uma personalidade portuguesa que esteve aqui há séculos.
Frei António das Chagas era o homem certo para a minha reflexão.

Nascido em Vidigueira, no Alentejo, estudou em Évora, em seguida tornou-se militar em Moura (estava lá para escapar da Justiça, já que matara um homem num duelo), habituou-se a escrever versos picantes, foi descrito pelos biógrafos como um amante atrevido (talvez um freirático[5], mesmo), esteve no Brasil como soldado e lá leu uma obra que o teria abalado, mas que ainda não era o derradeiro fator de mudança. De volta a Portugal, teve um pedido de ingresso na Ordem de São Francisco negado, indo outra vez para as armas e para a pena. Por tudo isso, a conversão soava como um divisor de águas na vida dele, era tal e qual o acolhimento de um chamado que produzia seu eco, tantas tinham sido as ocasiões de burla e de incitação ao erro.
Aos 31 anos, abandonada a vivência mundana, enfim, esse homem combativo aceitaria numerosas tarefas relacionadas à direção espiritual dos seus pares; encarregar-se-ia de transmitir ideias muito distintas das que o tinham movido: pregava o louvor a Deus, a caridade e a paciência, enquanto lia e respondia cartas, na medida em que as andanças pelo país, em missão para disseminar valores cristãos, permitiam.
Lidas, tais cartas que aconselhavam de forma pouco usual naquela época, quer pela informalidade, quer pelas referências a um mundo que não é o espiritual, ajudaram-me a juntar as peças da minha estada em Amarante, considerando que Frei António das Chagas conheceu um ponto de viragem e também eu cheguei ao meu, a viver nessa cidade.
Ele, em outros tempos, visitou muitos lugares em Portugal. Chegou inclusive a fundar um convento, no ano de 1682. Eu, em Amarante, conheci pessoas para as quais o trabalho voluntário faz sentido. Montamos duplas para que nosso ambiente de trabalho voluntário ficasse limpo; estivemos presentes em feiras locais; fomos às escolas públicas e também à escola profissional. Algumas dessas pessoas ainda são referências na minha vida pessoal, com elas posso conversar à vontade sobre outros encontros, outras andanças.
No geral, porém, minha experiência evidentemente limitada não traz muita notícia de gestos capazes de conduzir a atos concretos de aproximação. Talvez eu mesma, como cidadã (vizinha, condutora, transeunte) tenha sido tão mesquinha quanto aquilo de que senti falta nos outros.
Posso ter falado pouco, sorrido pouco, ter interpretado mal a aparência sisuda ao passo que, no interior das pessoas, havia mais e melhor.
De toda forma, minha permanência em Amarante resultou em uma troca de afeto muito mais pequena do que a minha necessidade, num entorno de poucas ofertas de lazer, de aperfeiçoamento cultural, de trabalho.
Muito dessa troca se deu entre “a brasileira” e “o português”.
Ocupei o lugar que me destinavam, bem como eu, aos portugueses, destinei de antemão um lugar pequenino. Projeção contra projeção, preconceito contra preconceito.
Descontados os modismos desta nossa fragmentada e áspera época[6], na qual um “caramelo” ou é um doce ou um qualquer indivíduo castiço (um “cromo”, na linguagem popular portuguesa), por que não ser e buscar um caramelo, à maneira de Frei António das Chagas?
Pois para essa personagem histórica, as pessoas tinham de ser caramelos, a fim de que Deus gostasse delas, deviam desfazer-se, isto é, pôr-se de joelhos, para assim terem a experiência da renúncia, da confiança, da entrega.
Em vez do estado de coisas acima referido (a brasileira diante do português, projeção contra projeção, preconceito contra preconceito), nas palavras dele estava, afinal, o conselho para a construção de uma realidade em que saíssemos todos a ganhar: se eu me reconheço como criatura amada por Deus, estarei a reverenciá-lo ao amar. Em outras palavras: amo o que sou e o lugar de onde vim, amo o estrangeiro e o lugar onde ele nasceu; mesmo quando pareço humilhado, posso amar e aprender, posso amar e me redimir pela época em que não sabia que amar é indispensável.
A temática é barroca, sem dúvida, e nisso o autor de Cartas Espirituais estava em consonância com a sua época. A profundidade com que recriava as vivências mundanas e as seculares dava conta da divisão do homem barroco, era o testemunho desse homem pressionado para se redimir e pressionado, igualmente, para observar atentamente o mundo com todos os sentidos, de modo a sobreviver à crise política, à crise espiritual, à demanda científica etc. Argumentando, o homem barroco falava aos outros e a si próprio, lançava-se para o mundo e digeria esse mesmo mundo. Erguia uma espécie de altar para si, o que curiosamente acarretava em menos exposição.
Para observar e para argumentar, Frei António das Chagas esteve em Amarante. Pregou por cá. A lição de humildade, de que devemos encarar a dor para valorizar outros estados d’alma, estranhamente fez casa em mim. Parece que, hoje, se andássemos pela cidade de câmera fotográfica à mão, pouco veríamos de ações que revelam o Deus em mim, em você, em cada um de nós.
Terei percebido essa postura sugerida pelo franciscano ilustre, a postura que ele outrora reclamou, quando ouvi dizer com desdém: - “A brasileira que vive no rés-do-chão”?
Não, certamente que não, porque para além da brasileira, sabia eu, estava uma moradora capaz de varrer a entrada do prédio em que mora, quando a sujidade se acumulou e a senhora da limpeza não veio trabalhar.
Terei percebido a tal postura quando eu própria cogitei, em silencioso receio: - “Vêm até uma loja de artesanato comprar presépios tão ternos e, ao mesmo tempo, não sabem sequer tratar a vendedora com delicadeza?”
Não, certamente que o meu próprio raciocínio não era um exemplo de entrega, já que uma das senhoras que entrava naquela loja, senhora já em idade avançada, afinal aproveitava todas as caminhadas matinais pelo centro da cidade para admirar presépios e trocar dois dedos de conversa, com direito a partilhar pensamentos doces, inteligentes e tão humanos... até nos tornarmos, de verdade, amigas.
O projeto de uma família da terra, reflexo da família do céu, tocou-me em Amarante, foi nessa cidade que experimentei um reforço importante para a minha noção de família: o que tanto desejei, meus anseios mais antigos e viscerais de comunhão, ganharam força numa terra que bendiz a família, pela palavra, sem promover a ideia de uma grande família, em cujos membros cada um pode observar, comovido, a adoração pelo mistério que nos une e congrega.
Como estrangeira nesta cidade, estive sempre de fora da conceção de família dominante e essa falta fez-me ruminar com força um ideal de respeito, de tolerância, de generosidade, um ideal que está nas cartas de Frei António das Chagas.
Às voltas com a possibilidade de viver em outra cidade (portuguesa? Brasleira?), agradeço aos professores que tive em Amarante: aos amistosos, aos desinteressados e ao pregador impressionante e humano cuja mensagem ainda se faz ouvir, pois: “Grande felicidade é o conhecimento das nossas misérias” (Cartas Espirituais, p.217).



[1] ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1986. p. 406.
[2] Os arquivos do autor podem chegar a 20.000 documentos; desses, mais de 10.000 foram adquiridos pelo Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo e continua uma disputa dura entre herdeiros, editores e investigadores, para impedir ou ao contrário aceder ao restante do material.
[3] http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,arquitetura-brasileira-que-ganhou-o-mundo,708708,0.htm, consultado no dia 05.07.2012.
[4] As músicas ajudam a cristalizar imagens, à medida que aprendemos uma determinada melodia, suas primeiras palavras, um refrão etc. Na década de 60 do séc. XX, o compositor brasileiro Antônio Carlos Jobim, o Tom Jobim, projectou a figura de uma “Garota de Ipanema” (“Olha que coisa mais linda/ Mais cheia de graça/ É ela a menina que vem e que passa/ Seu doce balanço a caminho do mar”); dizem, aliás, que é desde há muito uma das canções mais tocadas em todo o mundo, atrás de “New York, Nem York”. Sabemos da representatividade da garota de Ipanema, tanto que em 2005 ela deu azo a um pedido de desculpas da parte do jornal The New York Times, depois que um jornalista norte-americano escreveu num texto que as brasileiras estavam, afinal, muito fora de forma – as mulheres fotografadas para a peça jornalística eram todas de outra nacionalidade e estavam simplesmente a aproveitar um dia de sol na praia, na cidade do Rio de Janeiro. Duas décadas depois de Tom Jobim, Caetano Veloso passou do ícone feminino para o masculino, ao criar “Menino do Rio” (“Menino do Rio/ Calor que provoca arrepio / Dragão tatuado no braço/ Calção, corpo aberto no espaço/ Coração de eterno flerte/ Adoro ver-te”). Se o surfista descrito na música era uma espécie de modelo de vida saudável, creio que hoje isso pouco importa. Pomos de lado os artistas, pomos de lado a sugestão de um estilo de vida recomendável para os jovens, esquecemos a beleza das praias, lugares muito apropriados para libertar do imaginário um sem número de sonhos e de fantasmas. O que nos resta? Resta um ideal de beleza, associado à garantia de popularidade. A beleza que passeia para ser vista, sem conteúdo, sem consequência, sem brisa, sem bruma, sem maresia. Da cidade do Rio de Janeiro se depreende, então, uma promessa de visibilidade para o corpo e outra de corpos a desfilar para o regozijo dos espectadores - pelo menos se as duas criações mencionadas forem nossa referência. Nesses casos, meio e ocupantes não caminharam para uma troca em que entram pensamento e sentimento. Foram até o nível das sensações. A marca destas músicas pode até ser perene, mas enriquece muito pouco a ligação entre homem e meio, entendendo-se este como mais do que um palco ou um pano de fundo para a beleza transitória.
[5] Um freirático era um homem que se envolvia em romances com freiras; visitava regularmente um convento, presenteava, tinha a reclusa como uma preferida, uma amante.
[6] Alberto Manguel, escritor argentino, identifica a nossa época como “Idade da Vingança”.*-/

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Curso livre


O cinema que vira as páginas de uma obra-prima

The Great Gatsby
1925, 1974 e 2013

  
Orientadora: Betina Ruiz
 2, 9, 16, 23 e 30 de Maio de 2013
Quintas-feiras, das 17h00 às 19h00



Francis Ford Coppola, Robert Redford e Mia Farrow dedicaram-se a dar vida nova à obra-prima de F. Scott Fitzgerald, The Great Gatsby. Depois deles, também Leonardo DiCaprio e Tobey Maguire, entre outros, envolveram-se com esta obra que retrata os EUA na frenética Era do Jazz. Deram brilho ao conteúdo e à forma desse clássico da literatura? Para Jay Gatsby, o protagonista, a indagação “Can’t repeat the past?” só pode ser respondida com um assertivo “Of course you can”! O trailer da versão filmada em 2012, incidindo justamente sobre esse ponto de vista esperançoso, põe DiCaprio a dizer-nos a meia voz esse sim aos sonhos. Em cinco sessões, vamos ler fragmentos, ouvir opiniões de espectadores e ver cenas, para saber se esse tipo de otimismo será sempre, afinal, romântico, ou se o cinema tem reverenciado a literatura.


Será que a propaganda atrairá? Lanço hoje esse convite, lembrando que as sessões acontecerão na cidade de Guimarães.

sábado, 29 de dezembro de 2012

O coração é um cérebro?


Porto, Portugal, 14 de dezembro de 2012. Lá se vão alguns dias desde que o Espaço t - Associação para Apoio à Integração Social e Comunitária, encerrou as atividades do seu sétimo congresso internacional.

A participação de palestrantes e público em torno do tema da felicidade oscilava do pueril reconhecido com algum embaraço à declarada defesa dos infelizes (prostitutas e também homens e mulheres com muita preguiça para os rituais que envolvem a construção de uma história de amor).

Era a segunda e última mesa-redonda da tarde e os esforços estavam concentrados no entendimento das relações entre amor, felicidade e sexo, por isso os discursos rondarem a esfera dos que vendem afeto e dos que querem comprá-lo a preços mais baixos, na prateleira do cibersexo, por exemplo.

De um dos lados da mediadora, a jornalista Conceição Queiroz, estavam uma socióloga e um sociólogo, do outro, um psiquiatra e um linguista. Todos os cinco haviam sido convidados para sentar em poltronas aveludadas, cada uma em uma cor e um desenho próprios.

As idades também eram distintas entre os membros do grupo, como distintas foram as opções de apresentação. A socióloga Inês Fontinha fez-se entender a partir de conceitos que são a base do trabalho dela com mulheres prostituídas, como o de “problema social”; o psiquiatra António Pacheco Palha também buscou definições, depois de recusar resposta a uma pergunta que considerou fora de foco, mas a atenção dele – e a nossa, é claro - recaiu sobre as definições de dicionário e os resultados de pesquisas internacionais; o sociólogo Telmo Fernandes se apegou a fotografias, duas delas muito interessantes, pois nelas está Kathrine Switzer, a 1ª mulher a oficialmente correr uma maratona, e homens que, no decorrer da prova de Boston, em 1967, ou apoiaram-na ou tentaram impedir que ela chegasse à meta; o linguista Pedro Chagas Freitas levantou-se para ler uma espécie de manifesto, que falava em insegurança e na consequente resignação com qualquer coisa que se aproxima da felicidade, mas que é apenas subfelicidade.



Certo é que todos eles apontaram caminhos, entre a margem que a incerteza e o riso permitem.

Em seguida a essas quatro abordagens, ainda houve tempo para que viesse ao encontro do público um senhor espanhol de nome José Maria Dória, com uma apresentação intitulada “Un mundo feliz”.

De acordo com essa última perspectiva (que antecedeu apenas dois discursos interessantes, mas protocolares), a felicidade é um estado de consciência, é a tão comentada espiritualidade, a que acedemos quando superamos sensações de carência.

Já antes eu, parte da plateia, tinha ouvido discursos semelhantes a esse, que ouço quase como instruções acerca de como admitir dor sem gerar sofrimento e por aí afora, mas esbarrei naquele dia em algumas coordenadas que fizeram eco, e já conto o porquê.

Mais do que qualquer outra informação ou reflexão anteriormente posta à mesa, guardei mais fundo a ideia de que o coração sabe, sente, intui, adianta-se, responde, toma decisões e pode, por isso tudo, ser a nossa esperança de integração, de unidade, uma vez que a razão não nos tem conduzido a bom porto. A mensagem foi diretamente para o título dessa minha cronicazinha, justamente.

Se medo e amor estão em compartimentos conectados, como afirmou o orador, dentro do sistema que se ensina na escola, lá atrás na nossa educação formal, sob o nome de “vasos comunicantes”, que conclusões são possíveis? Ai de quem nunca aprende a parar de alimentar o tanque do medo, pois estará sempre a interferir na pressão sobre o amor? Será essa uma dedução correta? Não sei dizer. Qual será a densidade do medo? Qual será a do amor? Misturam-se? Como caminham para o equilíbrio? Bom, entendo mal uma coisas dessas, embora tenha tido, em casa, um pai que falava vezes sem conta nos vasos comunicantes e em como se aplicam a muito da nossa vida prática.

Penso e com esse pensamento concluo, que o amor precisa de combustíveis, nem que seja uma dose de medo, mas antes de tudo precisa de ar, que é o mesmo que tempo, que amadurecimento ou, por outro lado, é o mesmo que inocência. Só a inocência permite alguns começos, as pessoas inocentes é que podem dar início a determinadas histórias, porque não a relacionam a traumas, a preconceitos, a dores de amores… Pessoas crescidas, no entanto, sabem o que é a ternura, valorizam-na. Em diferentes estágios de desenvolvimento, enfim, o coração e a inteligência dele podiam ser motores para um salto maior, um desenvolvimento de toda e qualquer fase do homem; o coração poderia apontar em que direção está a confluência, a coincidência, a encruzilhada com a qual saímos todos ganhando e por isso mesmo, felizes. O coração, consultado no momento a seguir às separações matrimoniais e ao reconhecimento de que estamos endividados, por exemplo, devia nos dar alento suficiente para mudanças de rumo, para recomeços em outras rotas, com novos hábitos, novos olhares, ou com os amores de que nos afastamos. Quem gosta de você? Onde está quem gosta de você?






Wall.e




Começou com uma música, um robô e uma barata muito estimada que, afinal, podia muito bem fazer parte daquele cenário de fim de mundo pardacento.

Wall.e, o robô, tinha a barriga grande como um forno, correntes nos dois lados do corpo, para se locomover à semelhança de um tanque de guerra, olhos que me impressionaram pelo formato e pelo tamanho, e duas mãozinhas como que à espera de outras mãos.

Estava sempre a trabalhar. Extrapolava a função para a qual fora criado, a de limpar o mundo dos detritos acumulados por gente cada vez mais desprovida de senso de responsabilidade: enquanto compactava o lixo, ele selecionava o que reluzisse e, então, deslocava esse lixo especial para um arquivo só dele.

Sentido de missão, lá isso ele tinha. E trabalhava sem desligar o botão da curiosidade. Era capaz de interromper a cansativa e inesgotável tarefa de limpar o mundo, para ouvir e ver musicais, como “Hello, Dolly!”, pois tudo está conectado, tudo tem um sentido caro. Wall.e estava atento às luzes, também, e por isso recebeu Eva tão logo uma nave a deixou à superfície.

Fôssemos nós, alguns de nós pelo menos, chatos que desejam tudo menos atender bem, tudo menos olhar de frente, tudo menos dar-se ao trabalho de compreender, e os pequenos tesouros estariam para sempre enterrados e os outros, esses estariam sós, irremediavelmente sós à procura de vida.

Bom, acontece que Eva não era como Wall.e. Fora concebida com um desenho mais elegante, talvez, os olhos emitiam uma luz azul (que apesar de fria, sabe-se lá por que, costuma ser entendida como uma credencial para o universo que vale a pena, o dos ricos e famosos), cheirava a higiene a brancura do material com que fora revestida. E não havia com ela hora para a diversão. Eva chegara para rastrear qualquer vestígio de vida, mas saberia o que vida quer dizer? Saberia dar com os presentes escondidos?

Eva reconheceu uma plantinha sobrevivente, guardada por causa da boa vontade de Wall.e, mas não reconheceu nele o desejo de mais vida. Ou só o reconheceu bem mais à frente. No princípio, nem aos musicais a sua doçura estava aberta. Fora formatada para bem menos do que esses encontros felizes…

A respeito de formatações, vale lembrar que, no início do século XIX, passou a existir, por obra da escritora inglesa Mary Shelley, um monstro que pedia uma companheira em cujas características ele se reconhecesse, uma igual, enfim. A incompreensão causava dor à criatura do Dr. Frankenstein. Há poucos anos, por outro lado, a Pixar, da Walt Disney Company, criou esse robô Wall.e igualmente esperançoso de um par romântico, mas que não tinha interlocutores aos quais se lamentar, a fim de conquistar o direito a um par com perfil pré-definido e mais apropriado do que outros perfis. Eva e ele não se pareciam, mas estava tudo bem. Wall.e queria passear, dar as mãos, cantar e dançar. No mundo dele, bolas, a música de fundo podia ser “What a wonderful world”, na voz de Louis Armstrong! A solidão e a consciência de que antes do fim do mundo existiam casais amorosos eram bons augúrios.

O filme tem muito mais, claro, mas hoje, às vésperas de mudar de ano, pensei nas nossas casas mal pensadas para o rigor do frio, do calor, das chuvas etc. Pensei nas tantas coisas concretas e indispensáveis, mal feitas e mal remediadas, que parecem interessar a pouca gente, a pouca gente desperta e disposta a arregaçar as mangas. Hoje sou eu a sentir na pele o quanto o descaso aliena e torna o espaço habitável pior do que pode ser. Não por acaso sinto-o na pele e não posso deixar de lamentar; estaremos cansados demais para construir com mais responsabilidade? Estaremos desatentos demais? Estaremos atrasados demais? E será que daqui a algum tempo ficaremos roliços e lentos como os humanos que tiveram de abdicar de um vasto espaço e depositar toda a confiança em Wall.e e Eva? Quem fará nossos robôs salvadores com um bocadinho do seu próprio coração?!

sábado, 8 de dezembro de 2012

As vantagens de ser invisível


“We accept the love we think we deserve” é uma das frases do filme “The perks of being a wallflower”, repetida de professor para aluno e deste para uma amiga. No segundo caso, a frase serviu como resposta à pergunta “Why do I and everyone I love pick people who treat us like we're nothing?”.

Há montes de artigos a respeito do filme na internet. Não quis ler muitos, para manter-me mais livre no momento de escrever.

Quis saber, isso sim, em quais situações a palavra “wallflower” é utilizada. Descobri que é aplicada num contexto fácil de visualizar, presente na trama do filme: quem pode ser chamado “wallflower” isola-se durante as festas, naqueles cantos onde não se dança; são as pessoas que vão a uma festa sozinhas, por exemplo, e não se soltam a dançar ou puxar assunto de forma a conhecer outras pessoas.

Fui wallflower? Não me refugiava nos cantos do salão. Eu participava. Sempre dancei, mesmo sem a exuberância das personagens do filme, mostrada numa cena que tem esta música:



Só que, ao mesmo tempo em que participava, sentia-me transparente, como o protagonista se sentia antes de conhecer um determinado grupo de amigos. Às vezes ainda me sinto assim, como acontece a muita gente boa que está a precisar de espelho para se enxergar e não se retrair.

Decididamente não fui como o protagonista do filme, quando se trata de generosidade ao entender e acolher, sem julgar. Muitas vezes eu passei sem entender. A assimilação ou era lenta ou está muito mais vincada em mim, hoje. É igualmente verdade que a capacidade de assimilar existiu em força e ficou para trás, como por exemplo numa situação dos meus 11 anos, que uma conversa com um amigo trouxe à tona duas décadas depois, para mostrar como eu lhe tinha dado ânimo logo que nos conhecemos, porque o enxerguei.

Enfim, o que eu vi no cinema tem um pouco dos adolescentes que eu conheci e da adolescente que fui. Tem, ainda, algo da adulta em que me tornei; durante a fase adulta é possível experimentar emoções tão perturbadoras (ia dizer transformadoras, mas talvez seja exagero, pois os adultos podem estar muito cansados para mudanças de dentro para fora) quanto as das personagens do filme.

Mas vamos povoar de verdade a cena do filme, dando nome aos bois, porque se eu falar da minha experiência de adolescente, pode não soar tão credível quanto eu desejo.

No filme “The perks of being a wallflower” existe o Charlie, existe a Sam, existe o Patrick, existe a Mary Elizabeth. E mais uma constelação de amigos, parentes e opositores.

No fundo todos têm a impressão de que são uns desajustados, “misfit toys”, como Sam os define, mas se divertem. A própria Sam era embebedada nas festas, pelos rapazes, e depois passou a escolher namorados sempre infiéis. Patrick mantém segredo sobre um namorado que não quer assumir a homossexualidade, embora diga que o ama. Mary Elizabeth faz de conta que está mais zangada do que realmente está, para que não ousem criticá-la.

Quem entra para o grupo mais tarde é Charlie. Não tem amigos, enfrentou uma estafa por causa de traumas e teme os anos de high school, conforme vamos sabendo à medida que escreve para desabafar.

Mas que mudança acontece, então, no tipo de satisfação que ele consegue ter! Começa a viver situações e mais situações com os amigos novos, os que o acolhem, e a tempestade não desaparece, antes vira um chiste. Por exemplo: Patrick sabe que Charlie está em recuperação, sob cuidados médicos, e ao invés de orientar a conversa para os alertas, as chamadas de atenção, faz rir ao dizer que já está prevista outra crise para amigo, dentro de um certo tempo, da mesma forma que os outros podem contar com uma viagem ou o início de um curso.

Charlie faz progressos inclusive quando se aproxima da redescoberta de um dia muito duro na sua infância.  

Mais do que pensar, mais do que sentir, Charlie adquire muito jeito para dar, para receber, para se atirar - as cenas de “The Rocky Horror Picture Show” em que ele atua vestido de mulher, demonstram isso -, até ver o momento e, em cada momento, o infinito.

Se a amizade redime? Com toda a certeza, na ficção e na vida privada dos que têm a sorte dessa vivência e de escolher amores bonitos.