Pondera, Pandora, como se isto fosse um diário

Pondera, Pandora, como se trabalhasse para rever-se, inteira, neste diário

Um ou dois aforismos
Não sei explicar o motivo, mas sempre ouvi com um misto de curiosidade e desconfiança as pessoas que gostam de dar opinão introduzida mais ou menos assim: "como diz o poeta" ou "e como disse o outro". Apesar disso, coleciono alguns aforismos, cujos autores eu prefiro indicar a deixar no ar.

Teixeira de Pascoaes, por exemplo, tinha uns fantásticos: "Amar é dar à luz o amor, personagem transcendente"; "Só os olhos das árvores vêem a esperança que passa"; "Existir não é pensar; é ser lembrado"; "A indiferença que cerca o homem demonstra a sua qualidade de estrangeiro"; "Vivemos como num estado de transmigração para a nossa fotografia".

Ele viveu em Amarante! Pena que não se respire o mesmo ar nos dias de hoje...

O aforismo dele de que eu mais gosto, no entanto, entre os que saíram publicados pela Assírio & Alvim, traz o seguinte:

"A seara não pertence a quem a semeia, pertence ao bicho que a rouba e come".

Sendo homem da terra, do chão, dos cheiros da natureza, muito embora culto, eu só posso concordar. Para um espírito muito suave - a não ser quando sente-se desafiado -, esse tipo de sabedoria condensada é sem dúvida ensinamento.


terça-feira, 8 de outubro de 2013

Lúz à altura

A que hecatombe sobrevivi?
Dentro de um cómodo que faz lembrar um grande cubo revestido de azulejos, faço-me essa pergunta.
Os tons de verde que vão da água-marinha ao piche parecem-me muito impessoais, o pé-direito é altíssimo e, no entanto, eu não saí de mim ao entrar aqui, eu não me sinto intimidada. Tento estar, apenas.
Às minhas costas, a porta de madeira deslizou com todo o seu peso, mas não fez barulho. Estou presa, obrigada a contemplar. Afinal, o espaço é só um átrio, não um palco para uma surpresa qualquer. O que temer?
Pois.
Entretanto, a pergunta inicial muda pois eu treino e insisto, mas não sei o que é estar apenas, acabo por ser a menina de sempre, a menina que fantasia para poder estar. Pergunto-me, então, se estou neste cenário para atender ao convite de um artista, para viver sob o efeito do ambiente com que ele sonhou. Imagino-o a imaginar, a montar o cubo, plano após plano, e a mandar-me o chamado, até me ver entrar.
São obras dele os três bancos de madeira encostados à parede?
Estou tão cansada que não cedo à tentação de sentar, que estou eu a magicar, então?
Sigo em frente e, quando chego ao banco - e ele está vazio -, permaneço em pé.
Olho para a porta, de novo.
Nem pull nem push, nenhuma aragem pela fresta. Nem uma minúscula linha de luz vinda do exterior.
Há sussurros e ao procurá-los noto um longo balcão. Uma das suas pontas está atrás da linha da porta, protegida por uma coluna. Não enxergo a outra. Talvez esteja atrás de mim, além do limite até onde eu avancei.
São funcionários que sussurram por detrás desse balcão. Parecem trabalhar para que eu me sinta inquieta, enquanto falam entre dentes.
É melhor evitar o ruído. Deve haver muito mais gente corredor afora.
Este corredor terminará?
Mais uma vez esforço-me para estar alienada do clima que minha observação ruidosa criou: começo a repassar item por item o que terei de dizer na próxima sala, a sala que eu não consigo antecipar como é. É mesmo um espanto eu ter reprimido esse discurso durante tanto tempo!
Finalmente, repito em silêncio as orações que sei.
Quero estar comigo na outra sala e se lá eu chegar a falar, farei-o só por mim, só em meu nome, sem levantar bandeiras.
Eu consigo.



Minha hecatombe foi de ordem moral, é importante que eu diga.
O que quero explicar é que eu não cruzei uma linha na rua, a partir da qual vi tudo em ruínas. São os meus nervos que estão em pandarecos e não os edifícios, a sinalética desta vila ou o calçamento de paralelos. Sinto calafrios a percorrerem meus braços. Tenho visões em que sucumbo à fraqueza.
Minha história se arrastou por mais ou menos oito anos.
Sinto uma enorme culpa, mesmo sabendo que seria muito melhor escolher a hipótese do convite ao “faz de conta que isto, hoje, …”. Eu dependeria do artista e não de mim, dona de escolhas tão questionáveis.
Volto a fixar o tríptico verde do cubo, o balcão, a coluna. Ao lado dela, numa parte em que já não restam azulejos, veem-se rachaduras finas.
Mais uma vez, neste dia, alguém fala para mim sem que eu ouça. Uma cabeça de perfil, com o ouvido em evidência, projeta-se na minha direção. Parece dizer:
- Escuta!
E eu escuto.
- Estão todos curiosos. Mas ninguém a seu favor. Não descaia, tudo se ouve, grava e repercute como o seu oposto.
O oposto. Será a regra deste jogo?
Qual é o oposto da frase que se lê à entrada deste edifício, então, qual é?
Não estou certa quanto ao que virá, mas houve um antes, uma entrada até este lugar. Eu passei por uma frase, tenho a certeza.
Esforço-me para virá-la do avesso e… nada.
Meu latim enfraqueceu, a frase não faz sentido para mim.
Tenho receio de que seja a epígrafe da minha história, de que seja uma profecia.
No pilar em que se lê “Iustitia Fons Pacis”, vi também uma fonte banhada de sol, murmurante, tão viva quanto uma criação artificial pode ser.
A agitação da água não produziu em mim um efeito calmante quando passei. Bloqueei tudo por onde passei até agora. Nenhum sinal de vida concreto.



Antes de chegar à fonte, ao pilar, à inscrição e à sala com jeito de cubo, no entanto, tive um sonho. Os artistas sonham e realizam, eu sonho.
Depois de entrar no grande cubo, observar e insistir na minha história, algo na atmosfera fez-me recuar à entrada deste prédio e, dela, recuar mais, até a madrugada.
Voltei a ocupar-me do sonho. O facto é que de manhã saíra do estado de sonolência para o de vigília a pensar nesse sonho, tentei lembrar-me dele diante da fonte e da inscrição profética.
Lembro-me dele agora.
O sonho me lançava, sem mais, a um detalhe da fachada de um edifício antigo e cativante.
Ali eu experimentava um prazer infantil com a visão de umas pedras escuras, notáveis mesmo sob a pouca claridade daquela hora.
Ah, sim, revelei que era noite, no meu sonho? Era. Minha efabulação parece preferir o escuro e o silêncio.
As pedras do edifício revestiam uma parede côncava. Eram grandes placas escuras e brilhantes, e disfarçado, no centro da concavidade, estava um nicho.
Eu não desviava o olhar até a imagem que o nicho protegia, para mim não havia santo ou milagre mais presentes do que o meu.
Os olhos passeavam sem compromisso, mais de uma vez eles riram para a centelha que eu trazia ao colo, a minha natureza, meu milagre, meu feixe de luz.
Eu não estava sozinha no sonho.
Ele sorria também e roçávamos, na passagem estreita, as folhas das plantas enfileiradas - e elas eram ainda mais lustrosas do que as pedras.
Num piscar de olhos já tínhamos subido a um apartamento todo branco, de limpeza e de reflexos, iluminado como meu filho, iluminado como eu podia ser.
E assim, com a sensação de serenidade por termos cruzado a porta de casa e reencontrado nossos aposentos e nossa simplicidade, o sonho se desvanecia.
Restavam duas coisas: a certeza de que nós dois seríamos felizes e uma estranha luz a insistir em iluminar cada um dos cenários em que eu nos vi.



Mas e o que vem a ser isso de felicidade? Ela agora tem luz, por acaso? Se eu nunca tive garantias nenhumas!
Quem me dera uma máquina que pudesse concretizar sonhos, concretizar o maior dos sonhos, a felicidade! Penso nisso, na existência dessa máquina, em algum lugar, para eu consentir em dizer meu “sim” à vida sem timidez, pois eu quero ser feliz.
Seria necessário um alarme, como naquele jogo infantil da batata quente quente quente. No meu caso, o alarme viria de uma máquina.
A tentativa de recordar o sonho tinha acabado de me ajudar a descobrir um mecanismo, em mim, que era capaz de emitir esse sinal.
A felicidade como uma luz de presença, só que andante, um foco, melhor dizendo, um arquivo em movimento, um recado de que a escuridão tem um caminho e tem suas presenças, também. À escuridão não se chega sozinha.
Eu que ao longo de oito anos perdera forças e vira um poço fundo, com uma máquina muito bem calibrada, que eu nem desconfiava ter, seria capaz de mostrar uma réstia do poder e do mistério de conhecer, finalmente, a minha missão.
Uma máquina de corda, uma máquina que iluminava tudo o que estivesse à altura do meu coração.
Ela sinalizaria os meus acertos.



Mas calma! Água nessa fervura. Para o lado com a máquina do coração e com a missão.
Eu estivera a divagar sozinha, em pé diante de uma fonte e de uma frase latina, por causa de um sonho, e estava a esvair-me do cubo do artista. Já são embrulhos a mais!
Preciso me inserir de novo nesta realidade de natureza morta, estar só e expectante, pois quando a hora se impuser e a decifração completa do sonho for interrompida, aqui, dentro do cubo, tudo o que pode ser chamado de inteligência vai ser exigido de mim; preciso fazer luz ainda sem a máquina, pois sei que houve um agente, fui interditada por um palhaço.
Na madrugada, quando o sonho virou fumo, foi o rosto dele que eu vi.  



Há quanto tempo tinha surgido, esquisita, a ideia do palhaço, estando eu bem acordada?
Um ano? Meses?
Um dia, o tão habilidoso e triste palhaço da minha história pôs maquilhagem a mais. E traiu-se.
Dele eu esperava uma revelação como as que acontecem aos vampiros: em frente ao espelho, ele seria entregue pela falta de imagem refletida. Seria assustador, eu correria, ele se afastaria também, receoso de que eu denunciasse a sua condição.
Mas foi tão diferente!
Eu vi mais naquele dia, vi o que não estava explícito naquele rosto, vi a camada de tinta que uma base queria encobrir.
A clareza veio e reconheci o traço escuro e arqueado de cada sobrancelha, o contorno esbranquiçado e grosso em torno de cada olho, o vermelho vivo das maçãs do rosto, a ponta do nariz que dava um ar perverso, e o abatimento de todo o conjunto. Era um palhaço cansado.
Tinha sido um disfarce, o tempo todo?! Um palhaço disfarçado de companheiro?
Disfarçado me levava pela mão à rua, disfarçado conduzia nosso carro, disfarçado fazia amor comigo antes de chegar o sono, disfarçado fazia o imenso favor de tolerar a minha insegura existência.
Virá hoje a usar esse disfarce? Terá, ao contrário, aberto o guarda-fatos para escolher outra pele, outro disfarce?
Possuirá uma máquina como a minha? Será cuidadoso com ela, a dar-lhe corda para funcionar? Terá um coração vermelho rubi, para legitimamente desejar que alguém esteja à altura dele?



Tiro da carteira uma presilha. Sem importância, rosa pálido e lânguidas flores roxas. Comprimo-a de leve com uma das mãos e com a outra ajeito o cabelo à altura da nuca. Prendo os fios, achando que com essa aparência me tornei parente próxima da costureira de um conto já fora de moda, costureira que trabalha todo o dia e nem por isso consegue comprar uma prenda à filha, a menina Tati. Que lembrança! A precisar de fôlego e com uma heroína dessas à cabeça! E, mais ainda, um artista sonhador a mover cordelinhos!
Estico-me, dou uns passos para o lado, mas não encaro de frente o palhaço que, neste preciso instante, entra na sala.
Respiro fundo.



Se desisti de sentar na plateia, sozinha, para o espetáculo que não tem artista, tem um farsante…
Só mais um pouco, querida, só mais um esforço, e a história termina com o fruto que não vai ser repartido, que não será engolido nem cuspido de volta à terra.
Seu fruto, carne da sua carne, a partir de hoje é livremente seu e aprenderá de ti a ter concentração e a desviar-se de embustes. Aprenderá de cor.
Você atendeu ao convite. No plano do artista estava escrito: “darás teu coração e ele lhe será devolvido, com outra forma, por outras mãos, batendo forte e com uma luz familiar”.
Mãe tem poder. À sombra da árvore de que a mãe toma conta não descansam palhaços, nem em seus galhos pousam predadores que consigam levar mais do que uma vaga recordação do seu fruto.
Enquanto uma mãe representa, vem como se fossem duas, em sonho e com os nervos à flor da pele.
É a missão que a unifica.
O próximo acto precisa ser organizado por sonhadores atarefados e hábeis.


segunda-feira, 27 de maio de 2013

Monstros S.A. ou Monstros e Companhia

Tenho assistido ao filme “Monstros S.A.” / “Monstros e Companhia” com meu filho.
Nunca o tinha feito antes de comprar o DVD para ele. Nem sabia que o filme tem mais de dez anos. Bom, eu ainda não era mãe na altura do lançamento e também já não era criança, adolescente ou livre para ver o que bem entendesse, à hora que quisesse.
Vimos juntos pela primeira vez há dias, e então pensei em uma série de detalhes que estão lá harmonizados.
Uma criança em frente à televisão ou ao computador, sem a nossa companhia, está bem se o programa a que ela assiste diverte e ensina, com um encanto próprio.
A música da abertura do filme é suave, o ritmo do jazz instrumental encontra paralelo no surgimento das imagens e na ação dos monstros que recolhem, que comem, letra por letra, a palavra que dá título ao filme. Eles abocanham, depois eles batem com a cauda e a letra salta etc, e meu filho acompanha os movimentos, muito atento.
E todas aquelas portas em tons de azul, ainda na abertura!? Tornam a aparecer no decorrer da ação e com muito mais força, em velocidade e em quantidade. Aparecem durante todo o filme, porque é da entrada de monstros pelas portas dos roupeiros, nos quartos das crianças, que estamos a falar nesse enredo. Mas as cenas em que elas voam, presas por cabos - e a sucessão delas parece interminável - é uma delícia. Lembrei dos teleféricos, do chapéu mexicano que faz nossas pernas balançarem no ar, mas no fundo é muito melhor.
Os corpos dos monstros também interessam. Fico a pensar no que parecerão a uma criança. Eu me pus a quantificar: este é verde, aquele é colorido, naquele predomina um bege mais apagado e por aí afora. Contei os que têm chifres e os que têm pontas arredondadas para todos os lados ou até membros molengos com os quais eles se equilibram; os que são muito altos e os que se arrastam pouco acima do chão; os que têm pelos e mais pelos e os que têm olhos e mais olhos. A Celia tem serpentes e guizo de cascavel no cabelo, a Rose mal tem lábios para marcar com o batom e até as pálpebras são pesadas – dela meu filho se esquiva no sofá da nossa sala. E não sou eu, não é você, não precisamos julgar, comparar conosco, dizer que fazem apologia dessa ou daquela aparência. São todos para rir e com um ou outro pormenor físico dá para simpatizar, seja pelo ar doce, seja pela alegria que emana (Mike Wazowski, por exemplo, nem se importa com a reduzida visibilidade do seu corpinho redondo e verde nos anúncios da empresa, ele vibra sempre e o espectador ri. Na versão portuguesa quem fez as falas dele foi João Baião e penso que o resultado está mesmo muito engraçado).
A ideia de que as crianças são nocivas e ao mesmo tempo úteis é uma proposta de mudança de perspectiva curiosa. Nosso mundo sem monstros e sem fábricas para extrair gritos infantis também passa pela noção de utilidade. Muito por causa dela é que as crianças não são respeitadas. Elas não produzem, assim como os idosos e os artistas. Há um livro de 1968, reeditado pelo menos mais cinco vezes, que mostra esses valores num texto claro e agradável de ler, por isso adequado ao estudante que não chegou ao ensino superior. O título é O Mundo Precisa de Filosofia, e o autor, Eduardo Prado de Mendonça. De acordo com Mendonça, quem gera dinheiro, quem pode ser associado à utilidade e ao progresso, tem prestígio. Quem alimenta o mundo dos afetos, por exemplo, é inútil. Tem seu valor, pois a inutilidade tem valor, mas pode ser mal cuidado pelos que só se rendem ao dinheiro, à utilidade e ao progresso.
No filme, o diretor da fábrica fala nas crianças cada vez mais difíceis de assustar para obter gritos e todos têm paúra de ser tocados por uma criança. As crianças são úteis, e mesmo assim são mal cuidadas.
Até que um génio na arte de assustar, um craque do susto é confrontado com uma menina e, fazendo na realidade apenas o que estava habituado, que é entregar-se às tarefas por inteiro, descobre o quanto uma menina oferece, de graça, e o quanto se arrepia, quando é amedrontada.
Sully, o mais eficiente assustador, dá-se bem com a menina porque é eficiente em tudo. Está onde é suposto estar, sem ressalvas. Se é necessário invadir o quarto das crianças, mesmo durante uma festa de pijamas, ele o faz. Se é hora de treinar, ele treina. Se a colega aparece bem na propaganda da empresa para a TV, ele reconhece o feito.
É muito óbvio que seja, assim, o bem-sucedido. É tão óbvio que me enternece. É tão importante, para mim, que me agrada pois, se meu filho, com o tempo, juntar essa e aquela ideia e entender o que é empatia, está excelente.
Disse-me uma entendida no assunto, que crianças acostumadas à ideia de empatia (porque lhes foi ensinada e porque viu seus pais porem-na em prática) escapam mais certamente à delinquência. Faz todo o sentido. É óbvio depois que se ouve o comentário. Uma vez tocadas pelo apelo de ver no outro uma possibilidade boa, respeitam-no, recebem-no, promovem empatia, formando laços.
Quem não se comove com o outro, quem não se arrepende pelo que fez de mau ao outro, e pelo que de bom deixou de fazer, tem mais problemas para se relacionar. Numa cena do filme, Sully revê-se numa gravação de vídeo, com a cara terrivelmente feroz, em ação a assustar alguém, e vê igualmente a carinha de pânico da menina, que naquele instante olhava para ele. Ele compreende que era tudo, menos aquilo, que cumpria fazer, uma vez que estava disposto a zelar por ela e já tinha inclusive sido banido para muito longe dela. Eles ultrapassam essa chatice e ele a devolve à casa, ok. Em seguida ele cria o seu próprio modelo de fábrica mas, reservada para o final do filme fica mesmo a melhor cara que um grandalhão pode fazer ao ouvir a voz de uma criança, e que só uma criança pode fazer nascer. Essa dádiva, felizmente, cabe aos que aprendem como cuidar do outro e, ainda, joga uma luz sobre os mais perdidinhos, aqueles que não cuidam e não compreendem a dor. Vai ver é por isso que precisam de fábricas mal concebidas, tramóias, comparsas e afins. Não há luz que chegue para quem não tem pares neste mundo. A luz aparece, dá sinais de vida, mas ela vai piscando, como se fosse um farol, até que ele deixa de reconhecê-la, porque ele nunca esteve lá.


quinta-feira, 23 de maio de 2013

Mudar sem ser o romântico de plantão


Em tudo existe um limite. A vida é cíclica e nada aumenta ou diminui eternamente. O movimento parece ser outro.
Se os desejos, por exemplo, não conhecem limites, eles se impõem um dia, obrigando homens e mulheres a viver em função da satisfação desses desejos. Assim, começam a perder pontos em áreas da vida que até então eram mais ou menos leves, mais ou menos equilibradas.
Mal comparando, é como se o desejo de comer doces virasse compulsão e o peso ganho com a ingestão exagerada transformasse qualquer caminhada num suplício, qualquer esforço físico, num drama, até ser impossível encarar uma ladeira, até ser impossível refrear a gula.
Essa condição está projetada na tela/ecrã do cinema de Portugal desde há uma semana. Leonardo DiCaprio expressa, na pele de Jay Gatsby, o quanto o desejo de retorno ao passado pode ser espinhoso.
Fui vê-lo por causa do livro de Scott Fitzgerald e também por causa da curiosidade quanto a esta adaptação para o cinema.
O que a personagem queria resgatar do passado? Uma paixão.
Nada de muito novo, pois não? A agudeza do escritor norte-americano realmente não estava nesse ponto.
Gatsby queria de volta uma mulher, ela o queria e queria também a redoma protetora em que o marido a mantinha, o marido dela queria ao mesmo tempo duas mulheres jovens e bonitas, uma delas queria infinitamente mais o amante do que o próprio marido, enfim, numa só trama de ficção, várias personagens moviam-se precariamente na vida, em função das paixões.
A carência afetiva, vista desse ângulo, não surpreende, ela abunda! Já ouvi um psicólogo referir certa vez a existência de estudos recentes a apontarem para cerca de 80% de casais amparados na mentira, para sustentar relações extraconjugais e casamentos arrastados. Agarrar-se às tábuas de salvação com unhas e dentes seria o prato nosso de cada dia… seria uma forma de conhecer o fim com dor.
Mas lá, na efervescência nova-iorquina dos anos 20 do século passado, o indomável não era o adultério, não era a carência, era antes a obsessão em supri-la, em queimar tudo para supri-la. Scott Fitzgerald foi ele mesmo um sujeito com pouco equilíbrio; isto somado ao talento para a literatura pode ter resultado no reconhecimento de que certos exageros, certas metas auto-impostas dão em ruína. Na trama de O Grande Gatsby, o escritor pôs um protagonista que tinha como objeto de desejo um sonho mais antigo, um vazio mais aterrador, cuja recusa incluía, de mistura, uma mulher muito querida.
Gatsby, para quem nunca leu o romance, é um daqueles homens que inventou uma origem de ouro, contrariou a pobreza real, perseguiu sem limites um pedestal no qual a vida amorosa era a cereja no topo do bolo.
Tudo o que Gatsby desejou, desde criança, era ser especial, era alcançar o céu dos outros para desfrutar a vida. Durante a caminhada em direção à conquista, conheceu Daisy e ela passou a simbolizar a chegada ao topo, porque valeria a pena perseguir esse sonho, se parecesse uma conquista para os dois.
Soa tão romântico, soa tão promissora a empreitada dele. Enquanto estamos a admirar nele esse dom de esperança, outra ordem se instala, no entanto. O olho de Deus em que Fitzgerald pôs uma armação de óculos capta o feitiço de um, a admiração de outro e a máquina continuar a andar, promovendo mudanças.
Para Nick Carraway, o narrador representado no cinema por Tobey Maguire, o fascínio que Gatsby exercia era o do otimismo, da dignidade. Gatsby, sujeito mal nascido e bem sucedido, era inquestionavelmente um homem de esperanças, de abertura para o mundo, de uma curiosa integridade. Era mil vezes mais admirável do que Daisy, do que o marido de Daisy, do que vários outros representantes das classes altas que violentam todo e qualquer sonho para nunca descer do pedestal. Como já vieram ao mundo conhecendo esse lugar de sonho, como sempre estiveram lá - muito embora não gozem desse privilégio com sabedoria de viver -, não estão dispostos a abrir mão dele.
Depois de ganhar dinheiro, de gastar dinheiro, de sair nos jornais, de aparentar boas maneiras e de se fazer temer em razão de boatos cuidadosamente difundidos, Gatsby ainda sonhava com a repetição de um caso de amor. Queria tudo, queria desde sempre, queria sem perguntar se alguém é verdadeiramente capaz de subir tanto e permanecer no alto.
Com a mira apontada para esse ideal de felicidade, Gatsby subiu e não vacilou até ao fim, convencido de que podia confiar no seu tino para o sucesso.
Gatsby abria espaço para subir, Daisy e os outros estavam sentados lá em cima e viviam estagnados, com o desejo de nunca descer.
Mas vida é definitivamente feita de movimento. Até um sonho de criança pode fazer uma pessoa caminhar, contente, para uma armadilha.
Quando uma obsessão está no controle, somos cego, perdidos por mais que o alvo pareça próximo.
O romance considerado obra-prima do escritor é pulsante, tem observações pungentes e, dentro delas, uma regra simples, que por milhares de razões pessoais parece difícil de obedecer – e não vai neste comentário crítica alguma: a vida tem limites, o êxito pessoal pode ser uma cilada, o quê para triunfar e para seduzir pode levar ao mais alto grau de decepção e de degradação. Gatsby aprendeu muito, farejou o caminho até o êxito porém, em certo ponto desse caminho, foi engolido pelo mistério, tragado por uma regra maior, por um limite.
Num último movimento, foi a arte de contar histórias, neste caso a história dessa enorme viagem da personagem Jay Gatsby, que permitiu a redenção e o recomeço da vida do narrador. Assolapado por ter assistido à ilusão do amigo, conseguiu se recuperar porque encarou a tarefa de dizer o que de puro e de potente há nas nossas raízes, o que por um excesso de imaginação estragamos, comprometemos e não chegamos a controlar.
O frisson do livro pareceu-me estar no filme. Nos diálogos, sem dúvida. Na música está, penso eu. Na dança das festas, idem. Nas paixões românticas, tolas e destrutivas, também. Por ser uma versão em 3D, até parece que sopra um vento de mudança a toda hora, na atmosfera de Gatsby, de Carraway, dos Buchanan, dos Wilson. Só faltou um ar quente e depois um ar gelado, para ser possível sentir na pele o que os excessos roubam da vida. Porque vida não é isso, acho eu...







quinta-feira, 25 de abril de 2013

E será que existe acordo?


Em idade escolar, e principalmente numa cultura de respeito às regras, “dar erros”, conforme diz-se em Portugal, causa algum constrangimento.
Mas, se é do Acordo Ortográfico que se trata, esse respeito às regras pode significar, ao mesmo tempo, conforto e desconforto.
Por um lado, alunos em tenra idade aprendem que é preciso aceitar regras. Os que hoje cursam a terceira série do ensino obrigatório, por exemplo, fizeram o aprendizado de português, até este momento, atendendo às regras do Acordo. Pode ser que tenham ouvido falar em polêmica, mas desconhecem as regras anteriores ao Acordo e escrevem como têm aprendido.
Por outro lado, alunos mais velhos e seus professores fazem coro para dizer que as regras do Acordo estão a ser impostas. Como alegam professores na pequena cidade de Amarante, em Gondomar, mais próxima do Porto, ou ainda em Guimarães, a simples imposição deveria ter sido evitada, quer ela seja fruto da presunção da elite, quer venha da ação mal planejada dos políticos.
Alunos do ensino superior português, no contexto das universidades particulares, mostram uma postura um pouco diferente. A orientação que lhes é dada aponta para o respeito ao Acordo porém, na prática, seus professores parecem preferir que eles continuem a escrever como faziam antes da mudança, na medida em que toleram trabalhos académicos escritos com as antigas grafias.
De modo geral, no entanto, professores e alunos portugueses têm passado a escrever em consonância com as prescrições do mais recente acordo da língua portuguesa, mesmo admitindo que o processo de adaptação faria mais sentido, caso os fundamentos das mudanças tivessem sido expostos com clareza à população.
No que toca à adaptação dos próprios professores, não é difícil perceber a incoerência com que são confrontados pois, em muitos agrupamentos escolares, as sessões de esclarecimento foram dirigidas exclusivamente aos professores de língua materna, deixando de fora os responsáveis pelo ensino de todas as outras disciplinas escolares.
Dos manuais escolares, os quais devem acompanhar os alunos por pelo menos quatro anos consecutivos, não se notam tantas queixas, porque já estão preparados conforme o Acordo.
Nos livros editados e vendidos no país, o usual é que a ficha técnica contenha a informação acerca do posicionamento quanto ao Acordo Ortográfico, e este tem sido respeitado, em geral; a recusa em publicar conforme as novas regras, que é exceção, acontece ou por imperativo do autor ou, mais raramente, do tradutor.
Durante o ano de 2012, nas grandes livrarias, a venda de pequenas apostilas com a indicação das principais mudanças que o Acordo trouxe à norma linguística tem sido reconhecida, pelos vendedores, como mais expressiva do que a venda de materiais mais densos sobre o assunto. Lúcia Vaz Pedro, autora de uma dessas apostilas, também assina uma coluna semanal no Jornal de Notícias, intitulada “Português atual” – já com a nova grafia -, o que evidencia que Portugal, mesmo sem investir em grandes campanhas de divulgação do Acordo, tem resguardado algum canal de exposição e debate do tema. A autora recebe numerosas mensagens de leitores a reclamar do Acordo, ainda que os argumentos apresentados resvalem para o que em terminologia técnica se pode chamar hipercorreção, isto é, a busca de um uso mais correto do que a norma.
Para além do JN, outros jornais de circulação nacional também aderiram. Alguns o fizeram em 2009, outros em 201o. Assim procederam igualmente as emissoras de televisão (a RTP, Rádio e Televisão de Portugal, aderiu em 2011) e a maioria dos partidos políticos, ao elaborarem material de interesse público.
Respeito, conforto, desconforto, um pouco de relaxamento e manifestações mais político-ideológicas do que razoáveis, enfim, compõem um panorama que fica mais claro quando lembramos como estão aturdidos os cidadãos portugueses. O crescente desemprego e a falta de identificação de muitos portugueses com a autoridade indicam que enquanto a crise financeira na Europa falar mais alto, será apenas lamentável que o debate ligado à língua e ao Acordo Ortográfico não chegue a preocupar. Existem preocupações que dispensam alerta, eles sentem em casa, na rua, na própria pele e o Acordo, por ora, mantém-se sem a aprovação consciente dos falantes.


Betina Ruiz

domingo, 10 de março de 2013

Depois de um perspicaz missionário


Como perceber a ligação das pessoas com o meio em que vivem?
Arrisco dizer que o magnetismo de um meio atravessa os pensamentos e os sentimentos das pessoas, embora seja difícil, para muitos de nós, dar expressão falada ou escrita a esse apelo e até mesmo captá-lo no ar.
Amparada por essa ideia de que está em cada um, sempre, mais camada menos camada, uma ligação com o meio em que vive e no qual circula, insisto na reflexão, à qual acrescento: será que as pessoas de hoje pensam nas pessoas que, séculos atrás, estiveram no espaço público que elas ocupam?
Será que as pessoas mais antigas, que habitaram ou percorreram um espaço qualquer, assumem um significado aos olhos dos habitantes e dos viajantes presentes neste espaço?
Trocando em miúdos ainda mais, pergunto se as pessoas hoje se inquietam com o facto de que, afinal, outras pessoas ocuparam e transformaram o espaço que foi embrião do espaço atual.
De vez em quando, a passagem de uma pessoa por um determinado espaço entra na ordem do dia, e então temos uma resposta para as perguntas transcritas.
A literatura tem incorporado essa ligação do homem com o meio; alguns escritores deixaram textos inspiradores, fruto de um grande poder de observação e de muita intimidade com as palavras. Assim procedeu João Guimarães Rosa, por exemplo, ao rematar:

“A vida inventa! A gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação – porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada”.[1]

Bastará atender a um chamado, então, para dar chance à vida, vida que é de todos, apesar de assumir contornos personalizados! Assim já nos ensinou esse bom viajante, homem de apontamentos sem conta, tomados no decorrer das viagens pelo Brasil. Estivera fora do país de 1938 a 1942 e depois de 1942 a 1945, com mais alguns períodos entrecortados, até 1951, sempre na condição de diplomata, na Alemanha ou na Colômbia; uma vez no Brasil (mais especificamente nos estados de Minas Gerais, Mato Grosso e Bahia), retomava, viajando e escrevendo pequenas notas, o jeito de estar com as pessoas simples. As notas manuscritas, postas em diários, estão hoje bem guardadas[2].
Os meios de comunicação de massa igualmente podem funcionar como motores da emergência dessa relação entre o homem e o meio. E muito embora a abordagem que os jornalistas costumam escolher resvale para o superficial e também para o óbvio, eles vão em busca de ícones para explicar como um meio atingiu determinado estado.
Se uma grande cidade como São Paulo, Brasília ou Tóquio é o assunto em pauta, por exemplo, é possível que os jornalistas se lembrem de mencionar nomes de arquitetos: Lina Bo Bardi, autora do edifício do Museu de Arte de São Paulo; Oscar Niemeyer, que projectou a Catedral de Brasília; Ruy Ohtake, que fez o prédio da Embaixada do Brasil em Tóquio, e outros.
O que essas opções acrescentam, se é inequívoca a ligação entre os arquitetos, os urbanistas, os paisagistas e as diversas formas de vida com que as cidades nos enchem os olhos? Fica resguardado o conhecimento do trabalho desses profissionais, sem dúvida, o que não é pouco dada a nossa ignorância, o nosso analfabetismo relativamente a tantos assuntos, entre eles a arquitetura, o urbanismo, o paisagismo.
Um caso que ilustra bem a aproximação entre a percepção do meio e a modelagem do meio vê-se no seguinte texto jornalístico: “Essas [exemplos de uma arquitetura brasileira que, desde os anos 1940, passou a ser valorizada no mundo todo] construções que mudaram o espaço brasileiro, quando passaram a se tornar locais de convivência, também transformaram a maneira com que cada pessoa utilizava sua cidade, seu lazer, seu viver”[3].
Há situações pontuais, como mostra o texto acima; problema é os jornalistas não fazerem uma nova leitura da obra deixada pelos ícones. Aquele diálogo que um ícone estabeleceu entre o seu mundo interior e o mundo exterior, diálogo capaz de documentar o lugar, a época, a consciência singular etc, visto assim, sem novidades, é desperdiçado.
 Enfim, sendo uma forma de assimilar o mundo, a curiosidade sobre a ocupação do espaço público me parece interessante, a despeito do parco contributo dos meios de comunicação de massa e da duvidosa insistência na popularidade, que por vezes é a marca, também, de algumas criações artísticas[4].
Uma caminhada pelo largo do Mosteiro de São Gonçalo, em Amarante, pode ilustrar de outro modo o que quero dizer e defender. Literatura e imprensa ficam de lado, por ora.
Desde menina penso que caminhar, aguçando nossos sentidos, aguça também nossa curiosidade e nossa determinação para sonhar. Foi caminhando por Amarante, que me perguntei de que maneira pessoas de outras épocas já moldaram o espaço público amarantino, em tempos remotos.
Mas atenção, pois não se trata de um exercício retórico, de um pretexto para louvar a cidade. Louvar não tem mal em si, eu tenho a certeza, a não ser pelo efeito que produz, quando antecede outras abordagens “menos famosas”. Louvar Amarante numa primeira aproximação esvaziaria um pouco as reflexões sobre Amarante. Poria um fim antes do fim, se me permitem o jogo de palavras.
Estrangeira residente em Portugal há quase sete anos, custei a pôr os meus sentidos a serviço da observação das pessoas que me precederam em Amarante.
As pedras do Mosteiro de São Gonçalo, presença maciça, parda e cinzenta, mas principalmente os contornos do edifício do Mosteiro, projectados no chão do largo por linhas finas, pouco falavam comigo até há mais ou menos três anos.
A visão nunca foi o meu ponto forte, feliz ou infelizmente. Mesmo assim, lembro que, caminhando muito nos últimos anos pelas ruas centrais da cidade, pensei mais de uma vez na influência de mulheres e de homens de outras épocas. Eles sentiram Amarante e exerceram aqui uma pressão, penso eu.
De forma muito abstracta e fugidia, nas minhas caminhadas em direção àquele que era então meu local de trabalho, comecei a associar a passagem dessas pessoas ao que a cidade de Amarante é na atualidade.
Brincar com a hipótese de que cada lugar tem sua alma, permeável à influência dos habitantes e dos viajantes soou, mais recentemente ainda, como boa ideia para um texto partilhado com amarantinos, portugueses de outras terras e outros brasileiros perdidos por cá. Sempre julguei que cada lugar tem a sua atmosfera, como todas as pessoas devem entender, mas desconfiei de que apenas a referência a uma atmosfera não chegaria para dar a minha versão do que um lugar é.
Pois para mim e para outros, como Elias Canetti, prémio Nobel de Literatura de 1981 e autor da frase “uma cidade pode amar uma pessoa”, um lugar é um resultado, dá uma resposta – ou poderia dar – a cada existência e a cada pedido de quem caminha por ele.
A palavra “responder”, a propósito, está ligada na sua raiz à palavra “responsabilidade”; a cidade nos dá uma resposta, atende pelo nosso bem-estar, na mesma medida em que somos responsáveis por ela, em atos e em projetos nascidos do pensamento, das sensações e do sentimento. Creio que a nossa responsabilidade maior se expresse mesmo numa espécie de meditação, de reflexão sobre o espaço público, na forma que somos capazes de dar aos nossos desejos.
Voltando ao caminho que este texto já percorreu, das idas ao centro da cidade de Amarante à contribuição dos escritores, acrescento que houve um dia em que declarei para mim mesma ter chegado o momento em que era preciso um foco concreto, para além da minha apreensão da alma amarantina.
A palavra das pessoas comuns, num passado não muito distante, não era inventariada, o que constituía outro desafio na formulação do meu palpite sobre a influência humana na ininterrupta constituição do espaço público.
Eis que, de repente, cruzei virtualmente com uma pessoa ilustre, apresentada aos curiosos nas suas próprias palavras e nas de uma investigadora portuguesa de renome, a Profª. Doutora Isabel Morujão.
A pessoa que vou relembrar por meio deste texto esteve na cidade de Amarante há muitos e muitos anos, espalhando por aqui os benefícios da sua aguda capacidade de observação.
Tinha, sem querer, encontrado o mote para expressar a minha curiosidade sobre os processos de transformação da cidade.
A sugestão deste texto, portanto, prendia-se finalmente a uma tentativa de sentir e pensar Amarante a partir do conhecimento de uma personalidade portuguesa que esteve aqui há séculos.
Frei António das Chagas era o homem certo para a minha reflexão.

Nascido em Vidigueira, no Alentejo, estudou em Évora, em seguida tornou-se militar em Moura (estava lá para escapar da Justiça, já que matara um homem num duelo), habituou-se a escrever versos picantes, foi descrito pelos biógrafos como um amante atrevido (talvez um freirático[5], mesmo), esteve no Brasil como soldado e lá leu uma obra que o teria abalado, mas que ainda não era o derradeiro fator de mudança. De volta a Portugal, teve um pedido de ingresso na Ordem de São Francisco negado, indo outra vez para as armas e para a pena. Por tudo isso, a conversão soava como um divisor de águas na vida dele, era tal e qual o acolhimento de um chamado que produzia seu eco, tantas tinham sido as ocasiões de burla e de incitação ao erro.
Aos 31 anos, abandonada a vivência mundana, enfim, esse homem combativo aceitaria numerosas tarefas relacionadas à direção espiritual dos seus pares; encarregar-se-ia de transmitir ideias muito distintas das que o tinham movido: pregava o louvor a Deus, a caridade e a paciência, enquanto lia e respondia cartas, na medida em que as andanças pelo país, em missão para disseminar valores cristãos, permitiam.
Lidas, tais cartas que aconselhavam de forma pouco usual naquela época, quer pela informalidade, quer pelas referências a um mundo que não é o espiritual, ajudaram-me a juntar as peças da minha estada em Amarante, considerando que Frei António das Chagas conheceu um ponto de viragem e também eu cheguei ao meu, a viver nessa cidade.
Ele, em outros tempos, visitou muitos lugares em Portugal. Chegou inclusive a fundar um convento, no ano de 1682. Eu, em Amarante, conheci pessoas para as quais o trabalho voluntário faz sentido. Montamos duplas para que nosso ambiente de trabalho voluntário ficasse limpo; estivemos presentes em feiras locais; fomos às escolas públicas e também à escola profissional. Algumas dessas pessoas ainda são referências na minha vida pessoal, com elas posso conversar à vontade sobre outros encontros, outras andanças.
No geral, porém, minha experiência evidentemente limitada não traz muita notícia de gestos capazes de conduzir a atos concretos de aproximação. Talvez eu mesma, como cidadã (vizinha, condutora, transeunte) tenha sido tão mesquinha quanto aquilo de que senti falta nos outros.
Posso ter falado pouco, sorrido pouco, ter interpretado mal a aparência sisuda ao passo que, no interior das pessoas, havia mais e melhor.
De toda forma, minha permanência em Amarante resultou em uma troca de afeto muito mais pequena do que a minha necessidade, num entorno de poucas ofertas de lazer, de aperfeiçoamento cultural, de trabalho.
Muito dessa troca se deu entre “a brasileira” e “o português”.
Ocupei o lugar que me destinavam, bem como eu, aos portugueses, destinei de antemão um lugar pequenino. Projeção contra projeção, preconceito contra preconceito.
Descontados os modismos desta nossa fragmentada e áspera época[6], na qual um “caramelo” ou é um doce ou um qualquer indivíduo castiço (um “cromo”, na linguagem popular portuguesa), por que não ser e buscar um caramelo, à maneira de Frei António das Chagas?
Pois para essa personagem histórica, as pessoas tinham de ser caramelos, a fim de que Deus gostasse delas, deviam desfazer-se, isto é, pôr-se de joelhos, para assim terem a experiência da renúncia, da confiança, da entrega.
Em vez do estado de coisas acima referido (a brasileira diante do português, projeção contra projeção, preconceito contra preconceito), nas palavras dele estava, afinal, o conselho para a construção de uma realidade em que saíssemos todos a ganhar: se eu me reconheço como criatura amada por Deus, estarei a reverenciá-lo ao amar. Em outras palavras: amo o que sou e o lugar de onde vim, amo o estrangeiro e o lugar onde ele nasceu; mesmo quando pareço humilhado, posso amar e aprender, posso amar e me redimir pela época em que não sabia que amar é indispensável.
A temática é barroca, sem dúvida, e nisso o autor de Cartas Espirituais estava em consonância com a sua época. A profundidade com que recriava as vivências mundanas e as seculares dava conta da divisão do homem barroco, era o testemunho desse homem pressionado para se redimir e pressionado, igualmente, para observar atentamente o mundo com todos os sentidos, de modo a sobreviver à crise política, à crise espiritual, à demanda científica etc. Argumentando, o homem barroco falava aos outros e a si próprio, lançava-se para o mundo e digeria esse mesmo mundo. Erguia uma espécie de altar para si, o que curiosamente acarretava em menos exposição.
Para observar e para argumentar, Frei António das Chagas esteve em Amarante. Pregou por cá. A lição de humildade, de que devemos encarar a dor para valorizar outros estados d’alma, estranhamente fez casa em mim. Parece que, hoje, se andássemos pela cidade de câmera fotográfica à mão, pouco veríamos de ações que revelam o Deus em mim, em você, em cada um de nós.
Terei percebido essa postura sugerida pelo franciscano ilustre, a postura que ele outrora reclamou, quando ouvi dizer com desdém: - “A brasileira que vive no rés-do-chão”?
Não, certamente que não, porque para além da brasileira, sabia eu, estava uma moradora capaz de varrer a entrada do prédio em que mora, quando a sujidade se acumulou e a senhora da limpeza não veio trabalhar.
Terei percebido a tal postura quando eu própria cogitei, em silencioso receio: - “Vêm até uma loja de artesanato comprar presépios tão ternos e, ao mesmo tempo, não sabem sequer tratar a vendedora com delicadeza?”
Não, certamente que o meu próprio raciocínio não era um exemplo de entrega, já que uma das senhoras que entrava naquela loja, senhora já em idade avançada, afinal aproveitava todas as caminhadas matinais pelo centro da cidade para admirar presépios e trocar dois dedos de conversa, com direito a partilhar pensamentos doces, inteligentes e tão humanos... até nos tornarmos, de verdade, amigas.
O projeto de uma família da terra, reflexo da família do céu, tocou-me em Amarante, foi nessa cidade que experimentei um reforço importante para a minha noção de família: o que tanto desejei, meus anseios mais antigos e viscerais de comunhão, ganharam força numa terra que bendiz a família, pela palavra, sem promover a ideia de uma grande família, em cujos membros cada um pode observar, comovido, a adoração pelo mistério que nos une e congrega.
Como estrangeira nesta cidade, estive sempre de fora da conceção de família dominante e essa falta fez-me ruminar com força um ideal de respeito, de tolerância, de generosidade, um ideal que está nas cartas de Frei António das Chagas.
Às voltas com a possibilidade de viver em outra cidade (portuguesa? Brasleira?), agradeço aos professores que tive em Amarante: aos amistosos, aos desinteressados e ao pregador impressionante e humano cuja mensagem ainda se faz ouvir, pois: “Grande felicidade é o conhecimento das nossas misérias” (Cartas Espirituais, p.217).



[1] ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1986. p. 406.
[2] Os arquivos do autor podem chegar a 20.000 documentos; desses, mais de 10.000 foram adquiridos pelo Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo e continua uma disputa dura entre herdeiros, editores e investigadores, para impedir ou ao contrário aceder ao restante do material.
[3] http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,arquitetura-brasileira-que-ganhou-o-mundo,708708,0.htm, consultado no dia 05.07.2012.
[4] As músicas ajudam a cristalizar imagens, à medida que aprendemos uma determinada melodia, suas primeiras palavras, um refrão etc. Na década de 60 do séc. XX, o compositor brasileiro Antônio Carlos Jobim, o Tom Jobim, projectou a figura de uma “Garota de Ipanema” (“Olha que coisa mais linda/ Mais cheia de graça/ É ela a menina que vem e que passa/ Seu doce balanço a caminho do mar”); dizem, aliás, que é desde há muito uma das canções mais tocadas em todo o mundo, atrás de “New York, Nem York”. Sabemos da representatividade da garota de Ipanema, tanto que em 2005 ela deu azo a um pedido de desculpas da parte do jornal The New York Times, depois que um jornalista norte-americano escreveu num texto que as brasileiras estavam, afinal, muito fora de forma – as mulheres fotografadas para a peça jornalística eram todas de outra nacionalidade e estavam simplesmente a aproveitar um dia de sol na praia, na cidade do Rio de Janeiro. Duas décadas depois de Tom Jobim, Caetano Veloso passou do ícone feminino para o masculino, ao criar “Menino do Rio” (“Menino do Rio/ Calor que provoca arrepio / Dragão tatuado no braço/ Calção, corpo aberto no espaço/ Coração de eterno flerte/ Adoro ver-te”). Se o surfista descrito na música era uma espécie de modelo de vida saudável, creio que hoje isso pouco importa. Pomos de lado os artistas, pomos de lado a sugestão de um estilo de vida recomendável para os jovens, esquecemos a beleza das praias, lugares muito apropriados para libertar do imaginário um sem número de sonhos e de fantasmas. O que nos resta? Resta um ideal de beleza, associado à garantia de popularidade. A beleza que passeia para ser vista, sem conteúdo, sem consequência, sem brisa, sem bruma, sem maresia. Da cidade do Rio de Janeiro se depreende, então, uma promessa de visibilidade para o corpo e outra de corpos a desfilar para o regozijo dos espectadores - pelo menos se as duas criações mencionadas forem nossa referência. Nesses casos, meio e ocupantes não caminharam para uma troca em que entram pensamento e sentimento. Foram até o nível das sensações. A marca destas músicas pode até ser perene, mas enriquece muito pouco a ligação entre homem e meio, entendendo-se este como mais do que um palco ou um pano de fundo para a beleza transitória.
[5] Um freirático era um homem que se envolvia em romances com freiras; visitava regularmente um convento, presenteava, tinha a reclusa como uma preferida, uma amante.
[6] Alberto Manguel, escritor argentino, identifica a nossa época como “Idade da Vingança”.*-/

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Curso livre


O cinema que vira as páginas de uma obra-prima

The Great Gatsby
1925, 1974 e 2013

  
Orientadora: Betina Ruiz
 2, 9, 16, 23 e 30 de Maio de 2013
Quintas-feiras, das 17h00 às 19h00



Francis Ford Coppola, Robert Redford e Mia Farrow dedicaram-se a dar vida nova à obra-prima de F. Scott Fitzgerald, The Great Gatsby. Depois deles, também Leonardo DiCaprio e Tobey Maguire, entre outros, envolveram-se com esta obra que retrata os EUA na frenética Era do Jazz. Deram brilho ao conteúdo e à forma desse clássico da literatura? Para Jay Gatsby, o protagonista, a indagação “Can’t repeat the past?” só pode ser respondida com um assertivo “Of course you can”! O trailer da versão filmada em 2012, incidindo justamente sobre esse ponto de vista esperançoso, põe DiCaprio a dizer-nos a meia voz esse sim aos sonhos. Em cinco sessões, vamos ler fragmentos, ouvir opiniões de espectadores e ver cenas, para saber se esse tipo de otimismo será sempre, afinal, romântico, ou se o cinema tem reverenciado a literatura.


Será que a propaganda atrairá? Lanço hoje esse convite, lembrando que as sessões acontecerão na cidade de Guimarães.